Goldman Sachs reportou, neste 13 de abril, receitas de 17,2 bilhões de dólares no primeiro trimestre de 2026, lucro líquido de 5,6 bilhões, retorno sobre patrimônio de 19,8% e receitas de negociação de ações que quebraram todos os recordes da casa. O banco de investimento cresceu 48% em receita no período. Em qualquer outra época da história financeira, isso seria champanhe, discurso e manchete unânime. A reação do mercado foi, digamos, morna. O que o mercado sabe que os press-releases não contam é a pergunta certa, e a resposta não é confortável.

O chefe de pesquisa bancária americana da KBW, Chris McGratty, foi ao ar para explicar a reação ambígua de Wall Street ao Goldman e, enquanto explicava, revelou mais do que pretendia. Sua tese é que o Citi, e não o Goldman, é a grande aposta entre os bancos americanos em 2026, pela simples razão de que a reestruturação interna do banco, que passou dois anos desmontando uma hierarquia burocrática de 13 camadas para chegar a oito, está finalmente gerando dividendos reais. Projeção de crescimento de lucro por ação na casa de 34%. Receita esperada de 23,6 bilhões de dólares só no trimestre. A tese é sedutora: um banco que se corta para crescer em vez de crescer para se cortar. Quando uma instituição resolve que o próprio inchaço administrativo é seu maior concorrente, e age a respeito, merece crédito, literalmente e figurativamente.

Mas o que McGratty também disse, quase nas entrelinhas, é o que importa mais do que qualquer projeção de EPS. Dois riscos dominam o horizonte: o crédito privado e o emprego. O mercado de crédito privado cresceu de forma vertiginosa nos últimos anos, em grande medida por ser o território onde as regras são menos claras, o escrutínio é menor e o capital foi empurrado para fora dos balanços bancários convencionais por décadas de regulação que tentava controlar o risco visível e acabou apenas deslocando-o para onde ninguém olha. Siga o dinheiro o suficiente e você encontra a próxima crise antes que ela encontre você. O crédito privado é exatamente o tipo de ativo que floresce quando os juros baixos encurralam o dinheiro para fora das aplicações tradicionais e o empurram para estruturas criativas com rendimento melhor, rating duvidoso e liquidez de vitrine. Quando o cenário muda, essa criatividade some e fica só a dívida.

O segundo risco, o emprego, é mais visceral e mais imediato. Bancos americanos ganham quando empresas crescem, quando pessoas compram casas, quando crédito circula. O crédito circula quando as pessoas têm emprego e expectativa de continuar tendo. O mercado de trabalho americano entrou em 2026 em território de incerteza real, pressionado por tarifas que encarecem produção, por uma política comercial que mudou de regras no meio do jogo e por uma inflação que teima em não morrer do jeito que os modelos prometiam que morreria. Um banco lucrativo num trimestre de bolsa em ebulição é uma coisa. Um banco lucrativo quando a inadimplência começa a subir e os depósitos somem é outra história, e a segunda história ainda não começou a ser contada.

O Goldman ganhou muito dinheiro com caos de mercado. Isso não é surpresa nem mérito especial: quando a volatilidade explode, as mesas de trading das grandes casas ganham dos dois lados, dos que querem se proteger e dos que querem especular. O problema é que uma parte significativa da receita extraordinária desse trimestre veio exatamente desse caos, e o caos, por definição, não é uma fonte estável de receita. Quando os analistas "ficam desapontados" com resultados excepcionais é porque sabem distinguir lucro estrutural de lucro circunstancial, e o mercado que "reagiu mal" a números históricos do Goldman está fazendo exatamente isso. Está perguntando: quanto disso se repete no segundo trimestre, quando as tarifas tiverem se acomodado ou explodido de vez, e o volume de trading tiver voltado ao normal?

A aposta no Citi, portanto, tem uma lógica que vai além do valuation relativo. É a aposta em algo raro no mundo corporativo moderno: uma instituição que reconheceu que seu problema era ela mesma e fez alguma coisa a respeito. Se a simplificação estrutural do banco se traduzir em execução real, em eficiência que aparece nas margens e não apenas nos organogramas, o desconto histórico que o papel carrega em relação aos pares vira prêmio. Se não, vira mais um caso de reestruturação que gerou apresentação de PowerPoint, bônus para os consultores e nada para os acionistas. O que o mercado vai descobrir nas próximas semanas, quando o Citi publicar seus números, é em qual dessas histórias estamos.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.