A notícia chega embrulhada na embalagem mais asséptica possível: analistas de um banco americano mantiveram a classificação da fabricante de implantes ortopédicos depois do resultado trimestral. Pronto, fim do assunto, próxima manchete. Só que existe uma pergunta que nenhum boletim de research se dá ao trabalho de responder, e é justamente a única que importa, quem está realmente comprando esses parafusos de titânio que enchem o balanço da empresa.
A resposta incomoda. O mercado de dispositivos médicos nos Estados Unidos é uma das criaturas mais distorcidas que o capitalismo de compadrio já produziu, sustentado por Medicare, Medicaid, planos corporativos engessados por regulação federal e um sistema de reembolso que premia volume em vez de resultado. O preço de um implante de coluna não é descoberto na negociação livre entre quem oferece e quem precisa; é negociado em corredor entre fabricante, hospital, seguradora e burocrata, com o paciente entrando na conta apenas como o sujeito anestesiado sobre a mesa. Quando uma empresa cresce nesse ambiente, ela não está necessariamente vencendo a competição, está vencendo o jogo regulatório.
É por isso que o ritual dos analistas mantendo recomendação após resultado trimestral tem ares de teatro litúrgico. Eles olham para receita, margem, guidance, e tudo parece técnico, racional, científico. Mas a receita vem de onde? Da arquitetura de subsídio e mandato que faz o contribuinte americano, sem nunca ter assinado nada, financiar bilhões em procedimentos cirúrgicos cujos preços ninguém jamais discutiu numa mesa de negociação real. O analista vê o resultado visível, a empresa lucrativa, e ignora o que não se vê, o cidadão pagando imposto para sustentar margens que num mercado de verdade seriam pulverizadas pela concorrência.
Há ainda a camada das fusões. A Globus engoliu a NuVasive há pouco tempo, num movimento clássico do setor, consolidar para ganhar poder de barganha junto a hospitais e seguradoras. Em mercado livre, consolidação dessa magnitude convidaria entrantes famintos, startups com tecnologia melhor, preço menor, atendimento mais ágil. Em mercado capturado por FDA, por exigências regulatórias bilionárias, por relações de longa data com redes hospitalares, a barreira de entrada é tão alta que o concorrente sequer nasce. O resultado é o que se vê, poucos gigantes confortáveis, analistas confortáveis, acionistas confortáveis, e um sistema de saúde americano que custa o dobro do europeu sem entregar resultado proporcional.
O brasileiro lendo isso pode achar que é problema de gringo, e seria, não fosse o detalhe de que o Brasil está copiando o modelo na velocidade que consegue. ANS regulando plano, ANVISA travando importação, SUS comprando por pregão viciado, hospital filantrópico vivendo de renúncia fiscal, e fabricante nacional protegido por reserva de mercado quando convém. A diferença é que o americano pelo menos tem balanço auditado e analista publicando relatório. Aqui o esquema roda no escuro, e quando alguém aponta, vira inimigo da saúde pública.
Manter recomendação sobre uma ação não é análise econômica, é boletim meteorológico de um clima artificialmente controlado. Enquanto o sistema continuar imprimindo dinheiro para o setor via reembolso compulsório, a previsão será sempre a mesma, sol entre nuvens para os acionistas, chuva eterna para o pagador de imposto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.