O analista da Citizens repete o mantra de sempre, manter a recomendação positiva para os papéis da ServiceNow porque a base de usuários cresce e o pipeline de contratos parece robusto. Bonito no PowerPoint, problemático quando você tira os olhos do gráfico e olha para a economia real. A ServiceNow vende plataforma de automação de fluxos corporativos, software que organiza burocracia, e adivinha quem é o maior consumidor planetário de burocracia? Governo, gigantes regulados e conglomerados que nadam em capital barato há quinze anos. Recomendar a ação sem dizer isso é como elogiar a venda de guarda-chuvas sem mencionar que está chovendo dinheiro impresso.
Quem segue a trilha do dinheiro chega rapidamente ao mesmo lugar. Os clientes premium da ServiceNow são bancos, seguradoras, hospitais subsidiados, agências federais americanas e estatais europeias. Quanto mais regulação, mais compliance, mais relatório, mais auditoria, mais módulo a contratar. A empresa não vende inovação, vende anestesia para o inchaço regulatório que os mesmos governos produziram. É um modelo de negócio elegantíssimo: você lucra vendendo a solução para um problema criado por aquele que financia o seu cliente. O capitalismo de compadrio descobriu o software como serviço, e cobra por usuário ativo.
O argumento da Citizens, crescimento de usuários, esconde o que de fato importa, qual é a margem real depois de retirado o efeito de juros artificialmente baixos por uma década, programas de estímulo trilionários e contratos públicos que nunca passariam num teste de eficiência privada. Quando o custo do capital era zero, qualquer assinatura recorrente parecia ouro. Agora que o Fed tenta segurar a inflação que ele mesmo criou, vai ficar evidente que parte considerável dessa receita era fruto de orçamentos públicos generosos e não de ganhos genuínos de produtividade. O que se vê é o contrato fechado. O que não se vê é o contribuinte americano financiando, indiretamente, o múltiplo de cinquenta vezes lucro que o mercado paga pela ação.
Há também a peça cultural que ninguém menciona em relatório de banco. A ServiceNow prospera porque empresas grandes preferem contratar plataforma do que demitir burocrata. É mais elegante adicionar uma camada de software do que enfrentar o gerente médio que deveria ter sido dispensado em 2008. O sistema fica mais caro, mais lento e mais dependente, e o relatório do consultor diz que houve transformação digital. Houve, sim, transformação do dinheiro do acionista em jantar de executivo de tecnologia. Quem paga a conta, no fim, é o consumidor final via preço, o cidadão via imposto e o pequeno empresário que jamais conseguirá competir com quem tem licença ServiceNow para automatizar o que ele faz no caderno.
O ponto não é que a empresa seja ruim, ela executa bem dentro das regras do jogo distorcido em que opera. O ponto é a leitura ingênua que vem dos analistas de Wall Street, sempre prontos a confundir crescimento de receita com criação de riqueza. Crescer porque o Estado expandiu, porque o crédito foi subsidiado, porque a regulação obrigou novos módulos, isso não é vitória do mercado, é fatura do leviatã passada a um intermediário privado. Recomendação de compra com esse pano de fundo é menos análise e mais torcida, e torcida com dinheiro alheio costuma terminar mal quando o vento muda.
O investidor sério, aquele que pensa em dez anos e não em dez minutos, deveria perguntar uma coisa simples antes de seguir o conselho da Citizens. Se amanhã o orçamento federal americano for cortado a sério, se a Europa parar de imprimir, se a regulação encolher um terço, quanto vale a ServiceNow? A resposta honesta a essa pergunta vale mais do que vinte relatórios de banco. Mercado livre cria gigantes que sobrevivem ao vento contrário. Mercado capturado cria gigantes que dependem de o vento nunca mudar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.