A cena se repete com a pontualidade de relógio suíço. A Snowflake reúne investidores num auditório, projeta slides com setas subindo, fala em inteligência artificial, dados, plataforma, ecossistema, e os analistas dos grandes bancos saem do evento com a missão sagrada de reiterar suas recomendações de compra. A Citizens cumpriu o ritual com o entusiasmo previsível de quem sabe que cobrir uma queridinha da nuvem rendendo opinião morna é o caminho mais curto para perder acesso à companhia no próximo trimestre. O relatório vem embalado em jargão técnico, projeções de receita recorrente, expansão de margem, e ninguém, absolutamente ninguém, pergunta a coisa óbvia.

Que coisa óbvia? A de sempre. Como é que uma empresa que ainda queima caixa operacional consistente, que entrega prejuízo contábil trimestre após trimestre, negocia a múltiplos que só fazem sentido num mundo onde dinheiro custa zero. Esse mundo, convém lembrar, foi fabricado dentro de prédios com colunas gregas, por comitês que decidiram durante mais de uma década que a taxa de juros real podia ficar próxima do nada. O resultado dessa engenharia foi a transformação de toda uma geração de empresas de tecnologia em veículos de especulação travestidos de inovação. A Snowflake é filha legítima desse arranjo, e o analista que reitera a recomendação é o padrinho do batismo.

Olha, o ponto não é desprezar o que a empresa construiu tecnicamente. A plataforma é real, os clientes são reais, o produto resolve problema concreto de quem precisa orquestrar dados em escala. O ponto é outro. Quando um ativo é precificado a sessenta, oitenta, cem vezes a receita futura projetada, o que está sendo comprado não é a empresa, é a expectativa de que outro comprador, mais empolgado ainda, aparecerá amanhã pagando mais caro. Isso tem nome e tem história, e a história costuma terminar com analista de banco fazendo conferência para explicar por que o preço alvo foi revisado para baixo depois que a música parou.

Quer dizer, vale seguir o dinheiro. Quem ganha mantendo a narrativa de pé? O banco que tem relação de prestação de serviço com a companhia, que distribui ofertas secundárias, que acomoda executivos no jantar do CEO. Os fundos que carregam a posição e precisam que o preço continue justificando suas teses para os cotistas. Os funcionários da própria Snowflake, cuja remuneração em stock options só faz sentido enquanto a ação continuar voando. E quem paga, se a tese furar? O investidor de varejo que comprou no topo da euforia, atraído pela reiteração de compra do banco grande, achando que estava entrando num bonde técnico quando na verdade estava sentando na ponta da fila de saída.

Existe ainda a parte que ninguém vê. Cada bilhão que o mercado direciona para sustentar múltiplos inflados de empresas que ainda não provaram lucratividade é um bilhão que não foi para uma empresa de máquinas, de logística, de produção industrial, de algo que gera caixa hoje e emprego concreto agora. A liquidez não some, ela migra, e ela migrou em peso para a nuvem digital justamente porque o sistema monetário a empurrou para lá. Quando o ciclo virar, e ciclos sempre viram, o ajuste não será apenas na cotação de uma ou outra fabricante de software, será na realocação dolorosa de capital que estava na geografia errada desde o começo.

A reiteração da Citizens, portanto, é menos uma análise e mais um sintoma. Sintoma de um ambiente em que duvidar publicamente da próxima queridinha é mau negócio para a carreira do analista, em que o cliente corporativo paga melhor que o investidor final, em que repetir o consenso protege e questioná-lo expõe. O leitor atento não deveria perguntar se a Snowflake vale o que cobra. Deveria perguntar quem se beneficia de você acreditar que vale. A resposta, como quase sempre, está no andar de cima do prédio que emitiu o relatório.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.