A Citizens reiterou a classificação positiva sobre a Remitly, destacando a empresa como líder no segmento de remessas digitais internacionais. Para o investidor de Manhattan, é mais uma fintech promissora, com gráfico bonito e múltiplos saudáveis. Para o pedreiro hondurenho que manda duzentos dólares por mês para a mãe em Tegucigalpa, é a infraestrutura que tornou suportável aquilo que deveria ser inaceitável: o fato de que o dinheiro do seu suor atravessa fronteiras melhor do que ele mesmo.

Ninguém na mesa de análise pergunta a coisa óbvia. Por que existe um mercado de cento e cinquenta bilhões de dólares anuais para enviar pedaços de papel verde de um país para outro? A resposta não está em nenhum relatório de banco, porque revelaria o esqueleto no armário do sistema. Existe remessa porque existe miséria estrutural fabricada por décadas de impressão monetária, controle cambial, hiperinflação, confisco, populismo fiscal e burocracia que estrangula qualquer tentativa de prosperar dentro do próprio país. O imigrante não foge do sol do trópico, foge da impressora do banco central que transformou a poupança da família em pó.

A Remitly, quer dizer, faz dinheiro resolvendo um problema que os governos criaram. É o capitalismo limpando a sujeira do estatismo e ainda cobrando taxa pelo serviço. Os analistas elogiam a "vantagem competitiva tecnológica", o "moat regulatório", a "escala de aquisição de clientes". Tradução honesta: a empresa achou um jeito eficiente de fazer arbitragem entre moedas podres e moedas menos podres, e os governos cobram caro de qualquer concorrente que tente fazer o mesmo. Aquilo que o mercado chama de moat geralmente é só licença do Estado para cobrar pedágio na ponte que ele mesmo construiu mal.

Olha, é importante enxergar o que ninguém quer mostrar no gráfico do trimestre. Cada dólar que a Remitly fatura é um dólar que o trabalhador imigrante paga por um problema que não criou. A taxa de câmbio embutida, a tarifa por transação, o spread silencioso entre o que a empresa compra e o que o destinatário recebe, tudo isso é o custo invisível de viver num mundo onde a moeda virou política e política virou roubo legalizado. O lucro da fintech é proporcional ao fracasso monetário do país de origem do cliente. Quanto pior o peso argentino, melhor o trimestre.

E aí entra o detalhe que faria qualquer analista honesto engasgar no café. A própria moeda forte que a Remitly intermedia, o dólar americano, está sendo corroída há décadas pela mesma dinâmica que destruiu o peso, o bolívar e o cruzeiro, só que em câmera lenta. O dólar de hoje vale uma fração ínfima do dólar de 1913, quando a impressora foi inaugurada sob o nome simpático de Sistema de Reserva Federal. A Remitly é o negócio perfeito para uma era de moedas em decomposição: enquanto todas apodrecem em ritmos diferentes, alguém precisa cobrar pelo serviço de trocar uma podridão pela outra.

Me diz uma coisa: por que ninguém pergunta por que o mexicano precisa morar a três mil quilômetros da família para sustentá-la? Por que o filipino tem que limpar banheiro em Dubai para a mãe comer em Manila? Não é falta de talento, não é falta de trabalho duro, é falta de instituições que protejam propriedade, contratos e moeda. Onde existe Estado de Direito, o sujeito prospera onde nasceu. Onde existe Estado Predador, ele vira commodity de exportação humana. A Remitly não é a heroína da história, é a enfermeira do hospital de campanha. Aplaudir o curativo é não querer enxergar o tiro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.