A ClearPoint Neuro avisou ao mercado que vai esticar o braço para dentro do território do ultrassom focalizado de alta intensidade, aquela técnica que promete tratar tremor essencial, Parkinson e até abrir a barreira hematoencefálica sem cortar o crânio do paciente. O anúncio veio embrulhado no vocabulário habitual de pitch para investidor, com sinergias, plataforma proprietária e mercado endereçável de bilhões. Tradução, em português direto, para quem ainda não foi domesticado pelo dialeto do Faria Lima: a empresa viu um nicho caro, protegido por regulação pesada e financiado em última instância por planos de saúde e sistemas públicos, e decidiu se enfiar nele antes que a janela feche.
Olha, ninguém precisa ser contra a inovação médica para enxergar o que está acontecendo aqui. O ultrassom focalizado é, sim, uma tecnologia formidável, e tratar tremor sem abrir a cabeça do sujeito é o tipo de avanço que justifica todas as horas de laboratório que levaram até ele. O problema não está no instrumento, está no arranjo. Esse mercado não é livre coisa nenhuma. É um cartel de fato sustentado por barreiras de entrada altíssimas via FDA, ANVISA e equivalentes, por patentes que duram o suficiente para amortizar três gerações de executivos, e por um sistema de reembolso onde quem decide o preço nunca é quem paga.
Quer dizer, siga o dinheiro e a história fica clara. A ClearPoint não está apostando em curar gente, está apostando em ocupar um código de procedimento. O equipamento custa milhões por unidade, é instalado em hospitais credenciados, gera contratos de manutenção plurianuais e cada sessão entra como linha faturada em planos de saúde que repassam o custo para o assalariado via mensalidade. No setor público, vira licitação, vira emenda parlamentar, vira aquele assessor de ministério que descobre uma vocação súbita para neurociência seis meses antes de pedir exoneração e abrir consultoria. O paciente entra na conversa só no final, como justificativa moral para o arranjo inteiro.
Me diz uma coisa, alguém aqui acredita que o preço de um procedimento desses reflete custo real de produção mais margem razoável? Num mercado de verdade, com competição de verdade, esse tipo de tecnologia barateava por década, igual aconteceu com tomografia, com cirurgia ocular a laser, com tudo que escapou minimamente das garras do regulador. Aqui não. Aqui o preço sobe porque o regulador bloqueia entrantes, porque o pagador é terceiro, e porque o paciente, anestesiado pela bondade aparente do sistema, nunca pergunta quanto custa. Ele só pergunta quando a mensalidade do plano sobe de novo, e aí culpa o capitalismo selvagem por aquilo que é, no osso, capitalismo de compadrio em estado puro.
Há também a parte invisível, aquela que jornal de banco nunca conta. Cada dólar que vai para esse tipo de aposta corporativa é um dólar que não foi para pesquisa básica, para clínicas pequenas, para médicos autônomos que poderiam oferecer alternativas a um décimo do preço se a regulação deixasse. O capital se concentra onde o Estado garante a renda, e foge de onde o mercado teria que conquistar o cliente no peito. Por isso a inovação verdadeira, a que reduz preço e amplia acesso, escasseia tanto na medicina quanto sobra em smartphone. Smartphone não tem código de reembolso, não tem agência protegendo monopólio, e por isso fica melhor e mais barato todo ano.
O anúncio da ClearPoint, no fim, é só mais um sintoma de um sistema doente que se autopromove como avanço civilizacional. Vão chamar de revolução, vão estampar capa de revista, vão fazer documentário emocionado com paciente chorando de gratidão. E vai funcionar para alguns, claro que vai, porque a tecnologia é boa. Mas a fatura, essa virá silenciosa, parcelada e diluída no contracheque de gente que nunca ouviu falar em ultrassom focalizado, nem nunca vai precisar. Toda vez que o governo promete saúde acessível e a bolsa comemora, desconfie. Os dois só sorriem juntos quando o terceiro pagador é você.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.