A Coca-Cola Europacific Partners abriu 2026 com receita em alta, volumes resilientes e a confiança de reafirmar o guidance anual diante de um cenário europeu que, no papel dos reguladores, deveria estar afundando o setor de bebidas açucaradas. Não está. E a razão é simples, quase ofensiva à inteligência de quem acredita que decreto move mercado: o consumidor decidiu, mais uma vez, que quer aquilo que o burocrata jurou que ele não devia querer. Entre o moralismo nutricional de Bruxelas e a sede de um sujeito comum num bar de Lisboa, ganha o sujeito do bar. Sempre ganhou.
Vale lembrar o pano de fundo. A Europa transformou refrigerante em vilão público quase oficial. Imposto sobre açúcar em meia dúzia de países, restrição a publicidade infantil, rotulagem semafórica que trata o consumidor como criança que não sabe ler, propostas recorrentes de banir patrocínios esportivos, tarifaço travestido de saúde pública. E o resultado prático dessa engenharia social tributária? A engarrafadora reporta crescimento, repassa preço, defende margem e devolve dinheiro ao acionista. Quem paga a conta dessa novela regulatória não é a multinacional, que tem escala, advogado e capacidade de reformular SKU em três meses. Quem paga é o pequeno comerciante, o fornecedor local de garrafa PET, e principalmente o consumidor de baixa renda, que vê o preço da lata subir porque algum doutor de gabinete decidiu salvá-lo de si mesmo.
Aqui mora a parte que ninguém quer ver. Toda vez que o Estado europeu inventa um novo imposto comportamental, a empresa grande comemora em silêncio. Por quê? Porque a barreira regulatória é o melhor amigo do incumbente. Reformular fórmula, atender vinte e sete legislações nacionais, manter equipe jurídica permanente em Bruxelas, isso é luxo que a marca consolidada absorve com facilidade e que o concorrente regional simplesmente não tem fôlego para bancar. O imposto do açúcar, vendido como golpe na grande indústria, na prática pavimenta o monopólio dela. É o velho casamento entre o moralista de plantão e o lobista de terno bem cortado, cada um achando que está usando o outro, e ambos jantando às custas do contribuinte.
Os números do trimestre confirmam algo que economista de banco central tem dificuldade de processar: marca, distribuição e capilaridade são ativos reais, e atravessam ciclo, juros, inflação importada e modismo regulatório. Enquanto isso, o euro derrete devagarinho na carteira do trabalhador alemão, a energia segue cara por escolha política deliberada, e o crescimento do continente é uma anedota estatística mantida viva por revisões metodológicas. A Coca, que não precisa do BCE para vender lata gelada no verão grego, simplesmente faz seu trabalho. O contraste é didático. Empresa privada entrega resultado apesar do ambiente; governo cria o ambiente e ainda assim cobra mérito quando algo dá certo.
Há um ponto que merece pausa. A reafirmação do guidance num momento em que as bolsas tremem com tarifa americana, guerra prolongada no Leste e PMI industrial europeu patinhando há trimestres é, em si, um voto de desconfiança contra a narrativa oficial de catástrofe. Quando uma empresa de consumo de massa, que vende para quase trezentos milhões de pessoas em mais de uma dezena de países, diz com cara de paisagem que o ano vai cumprir o plano, está dizendo que o consumidor real, aquele que ninguém entrevista no Davos, segue comprando, segue trabalhando e segue ignorando solenemente o noticiário macro. A economia de verdade acontece no balcão, não no painel.
O recado fica. Onde o Estado recua, o capital produz; onde o Estado avança fingindo proteger, o capital grande prospera às custas do pequeno e do pobre. A Coca-Cola Europacific não é heroína nem vilã desta história. É o termômetro. E o termômetro está marcando exatamente o que sempre marcou desde que a humanidade descobriu o livre comércio: gente quer o que quer, paga o que pode, e despreza calmamente quem tenta decidir por ela. Refrigerante gelado vence comitê de ética toda vez. E vai continuar vencendo enquanto houver garganta seca e alguém disposto a vender água com açúcar sem pedir licença ao Parlamento Europeu.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.