A Cognizant anunciou nesta semana a ampliação da parceria com a CrowdStrike para oferecer serviços gerenciados de segurança baseados em inteligência artificial, com a promessa habitual de proteger empresas contra ameaças cibernéticas de forma "proativa", "integrada" e "de ponta a ponta". O comunicado vem embrulhado naquele papel celofane corporativo que todo mundo já conhece, cheio de palavras que soam revolucionárias mas que, traduzidas para o português, significam apenas o seguinte, a consultoria vai revender a plataforma da fornecedora com uma camada de serviço por cima e cobrar margem dupla pelo arranjo. O cliente final, aquele sujeito que assina o contrato de três anos achando que comprou tranquilidade, é quem banca a festa.

Olha, ninguém precisa ser cínico para enxergar o que está acontecendo aqui. O mercado de cibersegurança virou o novo eldorado das consultorias justamente porque o medo vende, e vende caro. Toda vez que aparece um ataque ransomware na manchete, os diretores financeiros das empresas perdem o sono e abrem o cheque sem ler a letra miúda. As consultoras descobriram isso há uma década e desde então constroem o mesmo modelo de negócio, casar com fabricantes de software, vender o pacote como solução completa, terceirizar a operação e ficar com a margem da intermediação. Não há nada de errado nisso em si, é livre comércio entre partes adultas. O problema é quando o discurso de "parceria estratégica" esconde o fato banal de que se trata de revenda com verniz de transformação digital.

Me diz uma coisa, alguém já viu uma dessas alianças anunciadas com pompa terminar barateando o serviço para o consumidor final? Porque a história recente do setor mostra exatamente o contrário. Quando dois fornecedores se juntam, o cliente perde poder de barganha, perde alternativa de fornecedor independente e ganha um único ponto de cobrança que centraliza tudo. A retórica diz integração, sinergia, eficiência. A planilha do CFO no ano seguinte diz aumento de quinze a vinte por cento no contrato de renovação. Essa é a parte que ninguém coloca no press release, porque press release não é feito para informar, é feito para mover ação no pregão da manhã seguinte.

E tem um aspecto ainda mais delicado nessa história toda, que é a captura crescente da infraestrutura crítica das empresas por um punhado cada vez menor de fornecedores. Quando a sua segurança, a sua nuvem, o seu endpoint, o seu monitoramento e a sua resposta a incidentes ficam todos amarrados em dois ou três contratos com gigantes globais, você não comprou proteção, você comprou dependência. Aquela velha sabedoria popular de não colocar todos os ovos na mesma cesta foi convenientemente esquecida pelos comitês de tecnologia que adoram a palavra "consolidação" porque ela soa eficiente nos slides do conselho. Eficiente até o dia em que a cesta cai e o ovo é o seu.

O detalhe que merece atenção, e que ninguém vai comentar nas reportagens elogiosas que vão se seguir, é que esse tipo de aliança consolida uma estrutura de mercado em que pequenos integradores locais, especialistas regionais e fornecedores independentes vão sendo lentamente espremidos para fora. Sobra cada vez menos competição real, e onde sobra menos competição sobra mais preço, menos inovação e menos escolha. O sujeito que está começando uma empresa hoje no Brasil olha para o mercado de segurança digital e encontra basicamente quatro nomes globais para escolher, todos vendidos por dois ou três grandes revendedores. Chamam isso de mercado maduro. É mercado capturado, que é coisa diferente.

No fim, fica a pergunta que importa, a inteligência artificial prometida nesses serviços vai mesmo proteger melhor o cliente, ou vai apenas justificar uma fatura maior e uma narrativa de marketing mais sofisticada? A resposta honesta, aquela que ninguém vai dar em coletiva de imprensa, é que ainda não se sabe, porque ninguém auditou nada disso de forma independente, e os contratos de confidencialidade garantem que ninguém vai auditar tão cedo. Enquanto isso, o aperto de mãos entre as duas companhias rende manchete favorável, sobe o preço das ações e empurra para baixo do tapete a única pergunta que o cliente deveria estar fazendo, quanto isso vai me custar daqui a três anos quando eu estiver tecnicamente impossibilitado de trocar de fornecedor.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.