O grupo Coles fechou o terceiro trimestre de 2026 com crescimento robusto na divisão de supermercados, e o mercado tratou o número como se fosse boa notícia pura. É boa notícia, sim, mas não pelo motivo que os analistas de banco vão repetir nas próximas semanas. O varejo alimentar não cresce porque o australiano está mais próspero. Cresce porque a cesta básica ficou mais cara, porque o consumidor migrou de marcas premium para marcas próprias, porque comer em casa virou luxo discreto em país que já foi sinônimo de classe média confortável. Faturamento nominal subindo enquanto o carrinho do cidadão encolhe é o retrato fiel do que a impressora de dinheiro fez com o mundo desenvolvido nos últimos cinco anos.
Olha, quando uma rede de supermercados reporta receita em alta e o governo bate palma, alguém está sendo enganado. Receita nominal não é prosperidade. É termômetro de inflação disfarçada de crescimento. O Banco Central da Austrália passou anos jurando que a alta dos preços era transitória, depois jurou que era choque de oferta, depois jurou que era ganância empresarial, e agora jura que está tudo sob controle porque o índice oficial desacelerou na margem. Enquanto isso, o consumidor sabe pelo bolso o que nenhum gráfico do Tesouro admite, comprar comida virou exercício de engenharia financeira doméstica.
Me diz uma coisa, por que toda vez que uma grande rede prospera num cenário de aperto, surgem imediatamente os mesmos sermões sobre concentração de mercado, sobre o duopólio entre Coles e Woolworths, sobre a necessidade de regulação mais firme. A resposta é simples e segue o trajeto do dinheiro. Concentração varejista no setor alimentar não é resultado natural de mercado livre. É consequência direta de décadas de regulação trabalhista pesada, exigências sanitárias hipertrofiadas, custos de licenciamento que nenhum pequeno varejista sustenta, e zoneamento urbano que protege os grandes contra a entrada dos pequenos. Quem escreveu essas regras? Os mesmos que agora reclamam que o mercado está concentrado demais. O incêndio foi ateado por quem hoje vende extintor.
O fenômeno não é australiano, é planetário. Em todo país que passou pela orgia monetária pós-2020, o varejo alimentar grande prosperou, o pequeno comércio morreu, a marca própria cresceu, e o consumidor descobriu que comer feijão com arroz virou item de luxo relativo. Não houve ganância súbita dos supermercados. Houve depreciação programada da moeda combinada com regulação que sufoca a concorrência. Quando o governo imprime dinheiro e ao mesmo tempo dificulta a entrada de novos competidores, o resultado é matemático, sobram poucos players grandes para distribuir a inflação ao consumidor final. Não há mistério. Há contabilidade.
O que ninguém vê no balanço da Coles é o que importa de verdade. Os pequenos mercados de bairro que fecharam nos últimos anos. Os fornecedores que aceitam margens cada vez menores porque não têm para quem vender. As famílias que trocaram carne por frango, frango por ovo, ovo por massa, e massa por silêncio na conversa de domingo. Isso não aparece em relatório trimestral. Aparece na obesidade que cresce junto com a pobreza, no diabetes que avança em bairros operários, na geração que cresce achando normal comer pior que seus avós comeram. O lucro do varejista é visível. O empobrecimento que financiou esse lucro é invisível por desenho.
A solução que virá das mesas de regulação será exatamente a errada, como sempre. Vão propor controle de preços, taxação extraordinária sobre lucro do varejo, novas agências fiscalizadoras, comitês de monitoramento de margem. Cada uma dessas medidas vai aprofundar o problema que pretende resolver, vai espantar capital do setor, vai reduzir investimento em logística e estoque, vai criar desabastecimento pontual que será atribuído à ganância e não à intervenção. O ciclo é tão velho quanto previsível. O remédio do governo é sempre uma dose maior do veneno que o governo injetou. E o cidadão, esse pagará a conta na fila do caixa, achando que a culpa é do supermercado, quando o verdadeiro caixa fica em outro endereço, com fachada mais imponente e bandeira hasteada na frente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.