A notícia é das que parecem banais até você olhar duas vezes. A Colgate-Palmolive foi elevada para compra sob o argumento de um "perfil de crescimento resiliente", expressão que no dicionário dos analistas quer dizer algo muito simples e muito velho: a empresa vende coisa que gente compra mesmo quando o Banco Central do mundo desenvolvido está imprimindo dinheiro como se amanhã fosse feriado, e coisa que gente compra mesmo quando está imprimindo menos. Creme dental, sabonete, detergente, ração para o cachorro. O tipo de item que não depende de narrativa, não depende de bondade governamental, não depende de "estímulo fiscal". Depende de dente sujo e de axila suando, que são coisas democráticas e universais, imunes ao último pronunciamento de qualquer ministro da Fazenda.

O detalhe saboroso é que o elogio ao "perfil resiliente" está sendo feito exatamente no momento em que o resto do circo começa a dar sinais de cansaço. Grandes empresas de tecnologia precisam reinventar a roda a cada trimestre para justificar múltiplos absurdos, bancos dependem do humor do presidente da autoridade monetária para decidir se o próximo ano vai ser bom ou péssimo, varejistas cíclicos rezam para que o consumidor ainda tenha crédito no cartão. A Colgate, coitada, só precisa que gente continue escovando os dentes. E gente continua escovando os dentes. Esta é a definição clássica e esquecida do que é um negócio: alguém produz algo que outro alguém quer, sem pistola apontada, sem subsídio, sem "parceria público-privada", sem ministério de incentivo.

E é aqui que vale seguir a trilha do dinheiro, porque a história fica mais interessante. Por que, afinal, esse tipo de empresa volta à moda justo agora? Porque anos de juros artificialmente baixos, seguidos de anos de juros artificialmente altos, seguidos de mais anos de ninguém saber direito o que vem a seguir, ensinaram a parte do mercado que pensa que a única proteção contra o experimentalismo monetário dos bancos centrais é o fluxo de caixa previsível de alguém que vende o que não sai de moda. Cada ciclo de expansão de crédito cria seus queridinhos temporários, startups financiadas com dinheiro barato que não deveriam existir em ambiente normal, depois vem o aperto e tudo isso evapora. Sobra quem vendia sabonete o tempo todo, aquele senhor chato que não aparecia nas manchetes, e que agora é redescoberto como "ativo defensivo" pelos mesmos que o ignoravam quando a festa estava boa.

Tem também um recado que pouca gente quer ouvir, e que vale especialmente para o Brasil. Enquanto o debate econômico doméstico gira em torno de qual imposto criar, qual setor favorecer, qual campeão nacional ungir com dinheiro alheio, qual teto furar, qual meta mover, o caso da Colgate mostra o óbvio que o óbvio esconde: valor duradouro é construído por décadas de fazer a mesma coisa bem feita, atendendo ao consumidor que paga com o próprio dinheiro, não ao burocrata que distribui o dinheiro dos outros. Não existe atalho. Não existe BNDES que fabrique marca centenária. Não existe política industrial que substitua cinquenta anos de confiança do consumidor. A marca que está na pia de cem milhões de banheiros brasileiros conquistou esse lugar um tubo de pasta de cada vez, sem precisar de gabinete.

O episódio também escancara uma contradição deliciosa do discurso ambiental e social que dominou a conversa corporativa na última década. As mesmas consultorias que passaram anos desaconselhando investimento em empresas "chatas" de bens de consumo básico, em nome de rankings que mudavam de critério a cada seis meses, agora descobrem que o produto mais virtuoso é aquele que o pobre compra porque precisa e o rico compra porque funciona. O mercado é esse tribunal silencioso que não lê relatório de sustentabilidade e não se comove com comunicado institucional. O mercado olha para a prateleira, pega o que resolve o problema, paga e vai embora. Este é o único voto que conta, e ele está sendo dado todo dia, em cada supermercado do planeta, sem intermediação de comitê.

Por isso, quando o analista escreve "perfil de crescimento resiliente", traduza. Ele está dizendo que encontrou um negócio que ainda funciona pela lógica antiga, a lógica de oferecer algo que as pessoas escolhem livremente comprar, repetidamente, sem que ninguém precise obrigá-las, subsidiá-las ou iludi-las. Num mundo em que metade da economia depende da próxima reunião de política monetária e a outra metade depende do próximo pacote fiscal, isto virou raridade, e raridade tem preço. A lição é simples e antipática para quem vive de inventar complicação: a prosperidade que dura não nasce do palácio, nasce da prateleira. E a prateleira, graças a Deus, ainda não aprendeu a votar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.