Olha, quinze centésimos de ponto percentual não é alta, é ruído estatístico. É a margem de erro do próprio pregão, é o suspiro do investidor que resolveu não vender antes de almoçar. E, no entanto, a manchete vende esse número como se fosse uma virada histórica, como se Bogotá tivesse acordado próspera de um dia para o outro. Quer dizer, a Colômbia governada por um ex-guerrilheiro do M-19 que confisca via imposto, hostiliza produtor rural, tabela preço de combustível e ameaça reforma tributária a cada trimestre, e o mercado sobe zero vírgula quinze. Isto não é otimismo, isto é anestesia.
Todo mundo que já viu esse filme antes sabe como termina. Quando um índice acionário caminha de lado sob um governo abertamente hostil à propriedade privada, o que está acontecendo não é confiança, é fuga controlada. O capital que ainda não saiu está esperando a janela de saída, e enquanto espera, precisa ficar em algum lugar. A bolsa vira estacionamento. O pequeno investidor local, sem passagem para Miami e sem conta em dólar, é quem segura o índice. É ele quem paga a conta quando a maré vira, porque quem tinha informação e tinha meios já rearranjou a carteira meses atrás.
Me diz uma coisa, quem ganha com esse tipo de manchete alegrinha? Ganha o governo, que precisa desesperadamente que o mercado pareça funcionar apesar da agenda dele. Ganha o corretor local, que precisa de fluxo. Ganha o jornalista econômico, que preenche coluna sem trabalho de reportagem. Perde o poupador colombiano, que lê o título, respira aliviado e continua exposto a um peso que se desvaloriza silenciosamente, a uma inflação que corrói o rendimento nominal, a um governo que já sinalizou mil vezes que considera lucro empresarial uma anomalia moral a ser corrigida via tributo.
E há a parte que a manchete não conta, aquela que fica invisível justamente porque nunca aparece na cotação do dia. Não aparece o investimento estrangeiro que não veio. Não aparece a refinaria que não foi construída porque a Ecopetrol virou instrumento ideológico. Não aparece a mineradora que engavetou o projeto porque o governo mudou as regras no meio do jogo. Não aparece o emprego que não nasceu, a fábrica que fechou as portas discretamente, o jovem engenheiro que fez as malas para o Chile ou para o Panamá. O índice sobe zero vírgula quinze e ninguém pergunta o que subiria se o país tivesse um mínimo de previsibilidade institucional.
A verdade incômoda é que bolsa em país populista funciona como termômetro quebrado. Ela mede a temperatura de curto prazo do jogador que ainda está sentado à mesa, não a temperatura real da economia. A economia real está no preço do arroz, no câmbio paralelo, na fila do consulado americano, na quantidade de containers que saem do porto de Cartagena com café e chegam vazios de volta. E esses indicadores, nenhum deles mostra alta de zero vírgula quinze. Mostram uma sociedade cansada, um empresariado assustado e uma classe média que já entendeu que foi vendida como moeda de troca por um projeto de poder que se veste de justiça social.
No fim, o COLCAP em alta é a versão financeira daquela foto de propaganda em que o político sorri diante da obra inacabada. Serve para o dia, serve para o post, serve para adiar a pergunta séria por mais vinte e quatro horas. Mas a pergunta segue de pé, e ela é sempre a mesma: quanto tempo mais um país aguenta viver de subir zero vírgula quinze enquanto perde um ponto inteiro de PIB potencial por ano de aventura ideológica? A conta chega, sempre chega, e ninguém que assinou embaixo estará por perto para pagá-la.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.