O Índice COLCAP avançou 2,37% no pregão e a imprensa financeira da região tratou o número como se fosse febre de termômetro de paciente saudável. Não é. Bolsa subindo em economia latino-americana, em ano de aperto fiscal frouxo e banco central espremido entre conter inflação e financiar gastança presidencial, é exatamente o tipo de sinal que deveria provocar desconfiança, não champanhe. O preço dos ativos não sobe sozinho, ele sobe porque alguém está despejando liquidez em algum lugar, e essa liquidez sempre tem origem, sempre tem destinatário, e quase nunca tem como destinatário final o trabalhador colombiano que ganha em pesos e gasta em pesos.
Quer dizer, vamos ao óbvio que ninguém na CNBC em espanhol quer dizer. A Colômbia de Petro é um laboratório a céu aberto de socialismo bolivariano disfarçado de social-democracia europeia. Déficit fiscal crescente, reforma tributária sufocando produtor, reforma da saúde paralisando setor privado, intervencionismo no setor de energia espantando capital estrangeiro de longo prazo. E mesmo assim a bolsa sobe. Por quê? Porque a bolsa não é a economia. A bolsa é um termômetro do humor do dinheiro especulativo de curto prazo, e dinheiro especulativo adora país instável onde a volatilidade gera ganhos rápidos para quem entra e sai na hora certa.
Olha, todo boom artificial parece prosperidade enquanto dura. Os investidores locais comemoram o ganho do dia e esquecem que o peso colombiano segue sob pressão estrutural, que a dívida pública passou dos 60% do PIB, que a inflação só não está pior porque o banco central segura juros em patamar que destrói a margem de qualquer empresa produtiva que não esteja na bolsa especulando consigo mesma. O capital que entra na bolsa hoje não vai abrir fábrica, não vai contratar engenheiro, não vai gerar exportação. Vai sair na primeira sombra de risco, deixando o investidor colombiano de varejo segurando o mico, como sempre.
Me diz uma coisa, quem ganha quando a bolsa sobe em país assim? Os bancos que operam as corretoras, os fundos estrangeiros que entraram comprado há trinta dias e estão realizando lucro, os assessores de investimento que vão usar o número de hoje para vender mais produto financeiro amanhã. Quem perde? O aposentado que tem fundo de pensão atrelado ao índice e descobre, daqui a seis meses, que aquele 2,37% de hoje virou menos 12% no acumulado. O empreendedor que não tem acesso a esse circuito e vê o crédito ficar mais caro porque o banco central precisa subir juros para conter o efeito secundário de toda essa farra. A trilha do dinheiro nunca termina onde o noticiário sugere.
A história da América Latina é uma sequência interminável de manhãs eufóricas e tardes catastróficas. Argentina 2001, Venezuela 2013, Equador 2020, e a Colômbia parece determinada a entrar na lista por mérito próprio. Cada uma dessas tragédias começou com um pregão como o de hoje, com manchete celebrando alta, com analista de banco recomendando comprar, com governo dizendo que o mercado finalmente reconhecia o acerto da política econômica. Seis meses, um ano, dois anos depois, o mesmo analista estava explicando por que ninguém poderia prever, por que era um cisne negro, por que a culpa era externa.
A verdade fria é que mercado de capitais em país com instituições frágeis, presidente populista e banco central pressionado é cassino, não economia. O 2,37% de hoje vale exatamente o que vale o fôlego do próximo influxo especulativo. Quando ele acabar, e vai acabar, o colombiano comum vai descobrir que comemorou a alta de algo que nunca foi seu, financiada com a desvalorização do que ele tem no bolso. O resto é teatro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.