A Spirit Airlines saiu do mapa e o coro dos analistas de gravata afinou o discurso de sempre, aquele que culpa a "concorrência predatória", a "pressão de custos" e o "ambiente macroeconômico desafiador". Quer dizer, tudo menos o óbvio: uma companhia que prometia voo barato foi triturada num ambiente em que voar barato virou ato quase subversivo. Quando o regulador encarece o slot, o sindicato encarece o piloto, o ambientalista encarece o querosene e o Tesouro encarece o capital, o low-cost não falha por incompetência, falha por desobediência ao novo dogma.

Olha, o que se vê é a manchete da empresa que quebrou. O que não se vê são as rotas que deixarão de existir, as cidades médias que perderão conexão, os passageiros de baixa renda que voltarão ao ônibus de vinte horas e os empregos que evaporaram nas pontas da cadeia, do mecânico ao agente de rampa. O fluxo de passageiros não some, ele se redistribui para três ou quatro gigantes que agora vão acomodar a demanda nos mesmos voos, com menos assentos, mais conexões e tarifas que voltam, magicamente, a ter dois dígitos a mais. Concentração de mercado nunca foi resultado espontâneo, é sempre subproduto de regulação que diz proteger o consumidor enquanto entrega o consumidor amarrado para o oligopólio.

Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que a aviação americana é "mercado livre"? O setor é um dos mais regulados do planeta, com tarifas aeroportuárias definidas politicamente, slots distribuídos como cartas de baralho num cassino federal, subsídios disfarçados de "essential air service" e bailouts recorrentes para as legacy carriers que, curiosamente, nunca quebram de verdade. A Spirit cometeu o pecado de ser pequena, ousada e barata num jogo desenhado para premiar quem é grande, conformado e caro. Siga o dinheiro: a fusão com a JetBlue foi vetada em nome da "concorrência", e o resultado da defesa heroica da concorrência foi a eliminação da concorrente. Há uma palavra técnica para isso, e ela não está nos manuais de antitruste, está nos arquivos da história das corporações protegidas pelo poder.

A lição vale para o Brasil, e dói mais aqui. Temos um setor aéreo refém de três companhias, com querosene tributado como artigo de luxo, aeroportos que cobram pedágio de fazenda colonial, ANAC que multa de tudo menos o próprio entulho regulatório, e um BNDES que historicamente decide quem voa e quem não voa via crédito direcionado. Quando a Azul respira fundo, o governo se mexe; quando a Gol bambeia, a Receita acha jeito de adiar tributo; quando uma terceira tenta entrar, descobre que o oligopólio não é falha de mercado, é desenho institucional. E o passageiro brasileiro, esse paga a tarifa mais cara do continente para voar em avião lotado e ainda agradece quando o aeroporto tem ar-condicionado funcionando.

O fim da Spirit ensina o que toda intervenção sempre ensina, mas que ninguém quer aprender: o teto de preço, o piso salarial, o imposto verde, a exigência ambiental, a regra trabalhista, a barreira de entrada, todos chegam vestidos de virtude e saem vestidos de monopólio. Cada camada de proteção ao "passageiro" é, na verdade, uma camada de proteção ao incumbente, porque o incumbente tem departamento jurídico, lobby em Brasília, cadeira em Washington e paciência para esperar a próxima rodada de socorro. O entrante tem só uma coisa, preço baixo, e é exatamente o preço baixo que o sistema foi calibrado para destruir.

No fim, o que muda no fluxo de passageiros é o que sempre muda quando o mercado é estrangulado em nome do bem comum: menos opção, mais custo, mais dependência do beneplácito do Estado para que a tarifa não vire confisco. Vão dizer que a Spirit "não soube se reinventar". A verdade é mais simples e mais constrangedora: ela foi reinventada pelos que detestavam a ideia de que voar pudesse ser barato. Mercado livre não morre de morte natural, é sempre assassinado, e o álibi do crime quase sempre tem o nome de uma boa intenção.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.