O fracasso das negociações de paz entre Washington e Teerã no Paquistão foi anunciado por JD Vance como se fosse uma fatalidade impessoal, a coisa inevitável que nenhuma boa vontade conseguiu evitar. Quase vinte horas de mesa, mediação paquistanesa, todo o ritual diplomático, e o resultado foi o mesmo que qualquer pessoa desprovida de ilusões liberais poderia ter previsto: quando um regime que fechou o Estreito de Ormuz em fevereiro se senta para negociar, não está negociando rendição, está comprando tempo. O programa nuclear iraniano era a linha que Teerã não cruzaria. Washington não aceitou. Fim da conversa, início do bloqueio.

O Comando Central americano foi cirúrgico no anúncio: o bloqueio se aplica a embarcações de todas as nações que tentem entrar ou sair de portos e áreas costeiras iranianas, incluindo todo o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Quem não vai ao Irã passa livremente. É quase elegante, na lógica da guerra, esta distinção entre "bloqueio iraniano" e "liberdade de navegação para os outros". O problema é que o Estreito de Ormuz não é apenas a saída do Irã, é a saída do Golfo inteiro. Bahrein, Kuwait, Catar, os Emirados, a Arábia Saudita, todo o petróleo que sai dali passa pelo mesmo gargalo de quarenta quilômetros de largura. Garantir que o gargalo esteja "aberto para os outros" enquanto é fechado para um dos lados é como dizer que a faca está livre para uso, desde que você não aponte para mim.

Desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram a campanha aérea em fevereiro, liquidando Khamenei e revirando a estrutura de poder iraniana, o tráfego no Estreito já estava com fluxo severamente comprometido. O Irã havia tentado usar o estreito como moeda de pressão, o que é exatamente o que qualquer analista com dois dedos de testa esperava. Agora os papéis se inverteram: quem bloqueava passa a ser bloqueado. Haveria uma poesia brutal nisso se não fossem os outros vinte por cento da oferta mundial de petróleo pendurados na balança. O barril já subiu treze por cento desde as primeiras sinalizações de ruptura nas negociações. Quem paga isso não é Trump, não é Vance, não é o Pentágono. É o motorista que abastece em São Paulo, o agricultor que move a colheitadeira no Mato Grosso, a padaria que aquece o forno a diesel no interior do Ceará. A conta da geopolítica tem sempre o mesmo endereço de entrega.

Siga o dinheiro e você entende por que guerras como esta são menos incompreensíveis do que parecem. As empresas de defesa que fornecem ao Pentágono registraram valorizações de dois dígitos desde fevereiro. As petroleiras integradas, que compram petróleo barato em tempos de paz e faturam em tempos de escassez, estão vendo suas margens crescerem em proporção direta ao caos no Golfo. Os contratos de inteligência, logística militar, segurança privada em zonas de conflito, todos eles têm recebedores de cheque com nome e sobrenome. Quando você vê um conflito que poderia ter parado e não parou, pergunte sempre quem ficou mais rico com a continuação. Raramente você ficará sem resposta.

A garantia americana de livre navegação pelo Estreito para embarcações não iranianas é tecnicamente coerente e praticamente instável. O Irã já mobilizou forças navais ao longo de sua costa sul e elevou prontidão militar em resposta ao anúncio do CENTCOM. Uma força naval que está sendo bloqueada não costuma observar passivamente embarcações transitando pelo mar que considera seu. O próximo incidente, seja ele provocado, acidental ou encenado para justificar uma escalada, é uma questão de horas ou dias, não de semanas. O histórico de confrontos em águas disputadas ensina que declarações de intenção não substituem capacidade de contenção. O CENTCOM pode anunciar livre passagem para todos. O Irã pode discordar operacionalmente. E aí começa o outro capítulo.

Há uma lição velha e recusada que toda geração aprende da pior maneira possível: cada intervenção gera a crise que justifica a próxima intervenção. O programa nuclear iraniano existia há décadas, as sanções escalaram, as sanções falharam, a pressão aumentou, a pressão falhou, a negociação foi tentada, a negociação falhou, e agora chegamos ao bloqueio naval de um país que produz o petróleo que aquece casas na Europa em abril. Nenhum passo dessa sequência foi inevitável. Cada um foi uma escolha com um custo que alguém, em algum lugar, foi designado a pagar sem ter sido consultado. O bombo da guerra ecoa bonito nos pronunciamentos, mas é surdo para o preço que chega na bomba de combustível. E este, pode ter certeza, chegará.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.