A Comissão Europeia veio a público prometer ações mais duras no comércio com a China, e a notícia chega com aquele ar de descoberta tardia que só burocrata de Bruxelas consegue exibir sem rir de si mesmo. Trinta anos depois de abrir as portas para que Pequim inundasse o continente de painéis solares, veículos elétricos, aço subsidiado e tudo mais que um Estado-partido decide produzir abaixo do custo, a União Europeia finalmente percebeu que talvez exista um problema. Quer dizer, a casa pegou fogo, a mobília virou cinzas, e agora vem o bombeiro anunciar que vai estudar a possibilidade de comprar um extintor.
O ponto que ninguém em Bruxelas tem coragem de dizer em voz alta é que a indústria europeia não foi assassinada pela China. Foi suicidada em casa, com método e convicção ideológica. Você fecha usina nuclear porque um movimento verde alemão acha bonito, importa gás caro, taxa emissão de carbono até a fábrica não fechar mais a conta, exige relatório de sustentabilidade que custa mais que a folha de pagamento de uma média empresa, e depois finge surpresa quando o concorrente que queima carvão a vontade, paga salário de fome e responde a um partido único oferece o mesmo produto pela metade do preço. Não é concorrência desleal do outro lado, é deslealdade consigo mesmo deste lado.
E aí vem a parte deliciosa, que é seguir o caminho do dinheiro. Quem ganhou com essa abertura irrestrita das últimas três décadas? As grandes corporações alemãs que mudaram cadeia produtiva inteira para a Ásia, os bancos que financiaram o arranjo, os portos de Roterdã e Hamburgo que cresceram engolindo contêineres, e a classe política que vendeu o discurso da globalização feliz em troca de doações e cargos em conselho de administração depois do mandato. Quem perdeu? O operário siderúrgico de Liège, o metalúrgico de Turim, o ourives de Birmingham, o pequeno fabricante de móveis português. O lucro foi privatizado nas torres envidraçadas, o prejuízo foi socializado nos bairros operários que hoje votam em qualquer um que prometa virar a mesa.
Agora, com a indústria nacional reduzida a museu e a opinião pública furiosa, os mesmos comissários que assinaram os tratados, ratificaram as cotas, aprovaram os subsídios chineses por omissão e fizeram vista grossa para o roubo sistemático de propriedade intelectual, descobrem o protecionismo como se fosse novidade pedagógica. É a mesma lógica do incendiário que se candidata a chefe da brigada. A solução proposta, claro, não é desregular a própria economia, baratear energia, cortar o cipoal verde que estrangula a produção. A solução é tarifa, cota, barreira não tarifária, mais um andar de burocracia em cima dos vinte e sete que já existem. Combatem o intervencionismo chinês com mais intervencionismo europeu, e o consumidor que pague a conta dos dois lados.
O fato concreto que se vê é o anúncio de ações mais duras, a coletiva, o comunicado solene em três idiomas. O que não se vê é o europeu comum pagando mais caro pelo carro elétrico que o governo o obriga a comprar, a energia que o governo decidiu encarecer, o produto importado que agora terá tarifa adicional, tudo em nome de proteger uma indústria que o próprio governo destruiu. Chama-se isso de política industrial, mas o nome técnico antigo é confisco em parcelas suaves, dissolvido na nota fiscal para que ninguém perceba de uma vez só.
A lição que Bruxelas se recusa a aprender é a mais simples de todas. Nenhum povo enriquece taxando seus próprios consumidores para sustentar empresários incompetentes, e nenhum continente se reindustrializa enquanto trata o empreendedor como suspeito e o burocrata como salvador. A China não venceu a Europa no comércio, a Europa entregou o jogo de bandeja para parecer virtuosa nos seminários de Davos. E enquanto o discurso oficial continuar tratando o sintoma e ignorando a doença, cada nova rodada de ações mais duras será apenas mais um capítulo da longa novela do despertar lento de quem dormiu de propósito.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.