Olha, quando um banco regional do interior americano sai distribuindo dez centavos por ação e anuncia recompra de dez milhões de dólares, o noticiário financeiro entra em modo celebração automática, como se estivéssemos diante de um ato de generosidade corporativa. Não estamos. Estamos diante de uma confissão silenciosa, embrulhada em comunicado oficial e traduzida em manchete bovina por quem cobre o setor. O capital que volta para o acionista é capital que a administração não soube transformar em crédito produtivo, em expansão, em novos negócios. É derrota disfarçada de prêmio.
Quer dizer, o ofício de um banco é simples na sua essência: captar poupança, avaliar risco, emprestar a quem produz, ganhar no spread. Quando a instituição prefere recomprar as próprias ações no mercado em vez de financiar a economia real, o que ela está dizendo, sem ter coragem de dizer, é que o ambiente regulatório, monetário e tributário no qual opera tornou o crédito produtivo menos atraente do que a engenharia financeira sobre o próprio papel. E o que produz esse ambiente? Banco central manipulando juros, regulador empilhando exigências de capital, fisco mordendo cada operação de empréstimo com voracidade de quem nunca trabalhou.
Me diz uma coisa: quem ganha de verdade com recompra de ações? O acionista marginal, claro, que vê o lucro por ação subir mecanicamente porque o denominador encolheu. Os executivos cujos bônus estão atrelados justamente a essa métrica, mais ainda. E o trabalhador da pequena empresa que precisaria daquele crédito para comprar máquina, contratar gente, expandir oficina? Esse não aparece na call de resultados. Esse é o invisível da equação, o custo que ninguém contabiliza porque não tem lobby em Washington nem coluna em jornal de negócios.
Há um detalhe ainda mais saboroso nessa engenharia toda. Décadas atrás, recompra agressiva de ações era considerada manipulação de mercado e tratada como tal pela regulação americana. Foi liberada nos anos oitenta e virou esporte nacional do Standard and Poor’s. O resultado prático é que trilhões de dólares que poderiam ter ido para pesquisa, salário, capital físico, foram para inflar cotações. O banco do interior só está repetindo, em escala modesta, o vício de toda a indústria financeira ocidental: preferir o atalho contábil ao trabalho de banqueiro.
E a recompra, convenhamos, tem um charme tributário que ninguém menciona em voz alta. Dividendo é tributado na fonte do acionista; recompra inflaciona o preço da ação e o ganho só aparece quando o sujeito vende, e ainda assim com alíquota de capital, geralmente menor. O dez centavos por ação é o teatro para a viúva e o aposentado; os dez milhões de recompra são o presente real para quem entende o jogo. Sempre que o Estado cria diferença tributária entre dois caminhos econômicos equivalentes, o capital fareja a brecha e migra. Isso não é maldade do banco, é resposta racional a um sistema desenhado por quem nunca leu sobre incentivos.
O que fica, no fim, é o retrato de uma economia que perdeu o gosto pelo risco produtivo e se acostumou ao conforto da reciclagem de capital. Banco que devolve dinheiro ao dono é banco que desistiu de fazer banco, e essa desistência tem nome, endereço e responsável: o arranjo institucional que tornou mais lucrativo brincar de tesouraria do que financiar o sujeito que quer abrir uma serralheria. Aplaudir isso como notícia boa é não entender que a festa de hoje é o velório silencioso da economia produtiva de amanhã.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.