A notícia chega com aquela ironia que só a realidade consegue produzir. Depois de três décadas de cúpulas climáticas, tratados ambientais, ministérios inflados, fundos bilionários, ONGs com sede em Genebra e palestras emocionadas sobre o pulmão do mundo, descobre-se agora que o destino da Amazônia talvez esteja sendo decidido não em Brasília, não em Bruxelas, não na COP da vez, mas no carrinho de supermercado de uma família de classe média em Xangai que resolveu trocar tofu por costela. A mudança nos hábitos alimentares chineses, com mais consumo de proteína animal de qualidade, frutas frescas e produtos processados, está reorganizando silenciosamente as cadeias agrícolas globais e, com elas, a pressão sobre a floresta. Fato que nenhum decreto produziu em trinta anos.

Repare na lição que ninguém quer ouvir. A floresta não foi devastada porque faltou lei, faltou fiscal ou faltou ideologia ambiental no currículo escolar. Foi devastada porque havia uma demanda gigantesca por commodities baratas, soja para ração e boi para abate em escala industrial, e essa demanda encontrou no Brasil o fornecedor de menor custo marginal. Quando o consumidor do outro lado do planeta começa a pedir produto mais sofisticado, com maior valor agregado por hectare, a equação econômica inteira se reescreve. Menos hectare desmatado por dólar gerado. Mais valor extraído da mesma terra. A floresta começa a valer mais em pé do que rasa, não por sermão, mas por cálculo. Isso é o que o burocrata jamais entendeu e jamais entenderá, porque exigiria dele admitir que não controla aquilo que jura proteger.

E aqui é onde o teatro brasileiro fica constrangedor. Gastamos fortunas em programas de comando e controle, criamos secretarias dentro de secretarias, importamos modelos europeus de regulação, multamos produtor enquanto o vizinho continua tocando fogo, e tudo isso enquanto a real variável que determina o destino da floresta está sendo decidida em uma cozinha em Pequim. O sujeito que verdadeiramente protege a Amazônia hoje não é o ministro de pasta ambiental de salário gordo, é o engenheiro chinês de classe C que ficou rico e agora compra carne de qualidade certificada, exigindo origem rastreada, exigindo processo limpo. O mercado conseguiu, em uma década de prosperidade asiática, o que três décadas de regulação verde não conseguiram nem chegar perto.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais saborosa. O complexo ambiental brasileiro, esse arranjo entre ONGs, fundações estrangeiras, ministérios, universidades e consultorias verdes, vive da narrativa de que a floresta só sobrevive porque eles existem. Cortar essa narrativa significaria cortar bilhões em financiamento, em cargos comissionados, em viagens de avião para reuniões em Glasgow, em prêmios de jornalismo ambiental. Por isso eles jamais admitirão em alto e bom som o que os dados mostram, que o consumidor livre, fazendo escolha livre num mercado livre, é o aliado mais poderoso que a conservação já teve. Admitir isso seria assinar a própria irrelevância. Melhor seguir vendendo culpa coletiva e financiando relatório que ninguém lê.

Tem ainda a lição filosófica, aquela que dói no orgulho do planejador. As ordens mais robustas que existem no mundo são as que ninguém planejou. A linguagem, os costumes, a moeda, os preços, todos surgiram da interação descentralizada de milhões de pessoas perseguindo seus próprios interesses, e funcionam melhor que qualquer comitê pode sonhar. A preservação ambiental é mais um capítulo dessa história. Quando a renda sobe, quando o consumidor fica exigente, quando o produtor precisa atender a um padrão de mercado para vender, surge espontaneamente uma pressão por sustentabilidade que nenhum tratado conseguiu impor à força. É a velha mão invisível trabalhando, agora com luvas de pele de panda. Os mesmos intelectuais que riem disso continuam acreditando, contra toda evidência histórica, que basta uma comissão suficientemente sábia em Brasília para resolver o que bilhões de transações resolvem sozinhas.

O recado então é desconfortável para quem vive da ansiedade ambiental. A Amazônia não vai ser salva por mais lei, mais imposto verde, mais ministério, mais ativista de microfone. Vai ser salva, se for, pela prosperidade alheia, pelo enriquecimento da Ásia, pela exigência crescente de mercados que pagam mais por menos pegada. Vai ser salva pelo capitalismo fazendo aquilo que ele sempre fez melhor que qualquer alternativa, alocar recursos onde eles produzem mais valor com menos destruição. E enquanto isso acontece silenciosamente nos contêineres do porto de Santos rumo a Xangai, o Brasil oficial seguirá fingindo que é o protagonista da história, quando na verdade é só o cenário onde a peça acontece. Quem manda na floresta não é quem grita mais alto na tribuna; é quem assina o cheque na ponta da cadeia. Sempre foi.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.