Lançaram mais um recurso no aplicativo de macOS e o mercado corporativo entrou em êxtase. O ChatGPT Record grava reuniões, conversas e notas de voz, transcreve o áudio automaticamente, resume o que foi dito e devolve tudo organizado em formato pronto para virar ata, plano de ação, e-mail de cobrança ou aquele documento estratégico que ninguém leria de qualquer jeito. É a secretária ideal do gerente médio brasileiro: não bebe café, não fofoca no corredor, não falta na segunda-feira e nunca pede aumento. O entusiasmo é compreensível. A ingenuidade dos entusiastas é que precisa ser examinada com lupa.

Há uma beleza técnica indiscutível no troço. Transformar voz em texto coerente, com pontuação correta e separação de falantes, era ficção científica há quinze anos e exigia laboratórios inteiros de pesquisa. Hoje cabe num botão. A engenharia por trás disso, modelos acústicos treinados em milhões de horas de áudio, arquiteturas que processam linguagem como se compreendessem o significado das palavras, é digna de admiração genuína. O problema nunca foi a ferramenta. Foi o esquecimento sistemático de uma pergunta que os antigos jamais deixavam de fazer: a quem isto serve, e onde repousa a coisa depois de pronta.

Porque a sua reunião, leitor, não fica no seu computador. Ela viaja por uma cordilheira de servidores, é processada por modelos hospedados em data centers que você nunca visitará, e em algum momento da cadeia alguém tem a chave técnica para ler, indexar e cruzar aquilo com outros bilhões de pedaços de conversa coletados pelo mundo afora. Você gravou uma negociação salarial confidencial, uma estratégia comercial, uma discussão jurídica delicada, e entregou de bandeja para uma empresa cujo modelo de negócio depende exatamente de saber o máximo possível sobre como humanos pensam, falam e decidem. O contrato de uso garante privacidade, dizem. O mesmo contrato que pode ser alterado unilateralmente no próximo trimestre, quando convier ao acionista.

O paralelo histórico é antigo e cansa de se repetir. Quando a imprensa de tipos móveis chegou à Europa, prometeram democratização do conhecimento e entregaram, junto, o aparato burocrático para a primeira lista universal de livros proibidos. Toda tecnologia que amplia o alcance da palavra amplia, na mesma proporção, o alcance de quem quer vigiar a palavra. A diferença é que agora não precisam mais proibir nada. Basta gravar tudo, organizar tudo, resumir tudo, e deixar o algoritmo decidir depois o que merece atenção e o que merece esquecimento. O Index Librorum Prohibitorum moderno não queima livro, indexa conversa.

Existe uma alternativa óbvia e quase ninguém menciona: modelos rodando localmente, na própria máquina, sem mandar um byte para fora. A tecnologia existe, está disponível, é livre, e processa transcrição com qualidade respeitável num notebook decente. Mas exige instalar, configurar, entender minimamente o que se está fazendo. O brasileiro corporativo prefere clicar num botão azul brilhante e assinar a licença sem ler. É a mesma alma que entregou os dados bancários ao primeiro aplicativo amarelo da praça e depois reclama da fraude no cartão. Conveniência cobra juros, e os juros vencem sempre no pior momento.

Use a ferramenta, claro. Ela é genuinamente útil, economiza horas, organiza o caos das reuniões intermináveis que infestam o capitalismo de slides. Mas use sabendo o que está fazendo. Não grave o que não pode vazar, não transcreva o que não pode ser lido por terceiros, não confie aos servidores alheios aquilo que constitui o núcleo da sua atividade. Quem entrega a própria voz por comodidade não está adotando tecnologia, está alugando a memória da própria vida para um senhorio que nunca apresenta a fatura, até o dia em que apresenta.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.