Houve um tempo, e não faz tanto tempo assim, em que planejar uma viagem exigia peregrinação a um balcão, onde um senhor de gravata folheava catálogos plastificados e oferecia pacotes fechados com a solenidade de quem vende indulgências. Depois vieram os sites de busca, que fragmentaram o processo em dezenas de abas abertas, planilhas improvisadas, anotações no bloco de notas do celular e aquela sensação difusa de estar esquecendo algo importante. Agora surge uma terceira onda, e ela é, convenhamos, devastadora para o modelo intermediário.
A proposta é simples e por isso mesmo revolucionária. O usuário descreve o que quer, o contexto da viagem, o orçamento disponível, as preferências alimentares, a quantidade de crianças a tiracolo, a tolerância ao calor, e recebe de volta um roteiro estruturado, com sugestões de hospedagem, estimativas de custo, tempos de deslocamento e até alternativas para dias de chuva. O que antes demandava três tardes de pesquisa desarticulada agora cabe num diálogo de vinte minutos. Não é mágica. É a compressão brutal de uma camada inteira de intermediação que sobrevivia justamente da assimetria de informação entre quem viaja e quem vende viagem.
E aqui mora o ponto que poucos comentaristas de tecnologia têm coragem de enunciar. A história da civilização é a história da descentralização do conhecimento. Quando a prensa de tipos móveis rompeu o monopólio dos copistas, toda uma corporação de escribas foi varrida em poucas décadas, e o mundo não ficou pior por isso, ficou imensamente melhor. O que acontece agora com o turismo aconteceu antes com enciclopédias, com agências de notícias, com consultores financeiros de butique, com despachantes. Cada nova ferramenta devolve ao cidadão comum um pedaço de autonomia que estava confiscado em nome da suposta complexidade do serviço.
Claro, os entusiastas da ferramenta costumam exagerar. Um modelo de linguagem não substitui o olho treinado de quem conhece Paris há trinta anos, não sabe que aquele restaurante fechou, não percebe que a região sugerida virou zona de furto sistemático depois da pandemia. A ferramenta é tão boa quanto o contexto que recebe, e tão precisa quanto os dados com que foi treinada. Quem pede pouco recebe pouco, quem pede com precisão cirúrgica recebe um documento praticamente pronto para impressão. A habilidade de perguntar voltou a ser uma virtude cardeal, e isso diz muito sobre o analfabetismo funcional da era anterior.
Há também a dimensão econômica que ninguém quer discutir em voz alta. Cada orçamento gerado por inteligência artificial é uma comissão que deixa de ser paga a um intermediário, um hotel que precifica diretamente, uma companhia aérea que negocia sem atravessador, uma margem que volta para o bolso de quem efetivamente vai viajar. É libertação patrimonial travestida de conveniência tecnológica, e talvez seja por isso que parte da imprensa especializada torce o nariz, tratando a novidade como modismo quando ela é, na prática, a democratização mais radical do turismo desde a invenção do voo comercial barato.
Resta o aviso de sempre, aquele que nenhuma ferramenta dispensa. Confiar cegamente é o pecado de todo usuário apressado. Verificar preços em fontes primárias, confirmar disponibilidade nos próprios estabelecimentos, ler comentários recentes, conferir exigências de visto e vacina, tudo isso continua sendo trabalho humano e insubstituível. A máquina organiza, sugere, calcula, rascunha. A decisão, a responsabilidade e o prazer de finalmente pisar naquele lugar distante seguem sendo, graças a Deus, exclusividade de quem carrega as malas.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.