Abriu a semana e lá estava mais uma dádiva descendo do Olimpo californiano, o tal Google Vids, um editor de vídeo que promete transformar qualquer sujeito com uma conexão razoável em diretor de cinema. O mecanismo combina três modelos distintos, um cuida do roteiro, outro fabrica as imagens em movimento, o terceiro compõe a trilha sonora, e o resultado sai montado em minutos. Tudo dentro da aba do navegador, tudo gratuito, tudo sorridente. E quando uma corporação de trilhões de dólares resolve distribuir ferramentas sofisticadas sem cobrar, o cidadão atento deveria começar a contar as colheres de prata.
O fato puramente técnico impressiona, seria hipocrisia negar. Décadas atrás, produzir um minuto de vídeo minimamente decente exigia uma ilha de edição que custava o preço de um apartamento, técnicos especializados, horas de renderização em máquinas barulhentas. Hoje o adolescente digita uma frase e a máquina devolve um curta com locução, cortes e música original. É o equivalente moderno daquela prensa de tipos móveis que tirou a leitura das mãos dos monges copistas e entregou ao padeiro, ao sapateiro, ao lavrador. A diferença incômoda é que naquele caso o artesão alemão vendia a máquina e seguia sua vida; aqui a máquina é dada, e o preço vem depois, camuflado em cláusulas que ninguém lê.
Porque a história da internet, para quem esteve prestando atenção, é uma enfiada de serviços gratuitos que se revelaram caros demais. O correio eletrônico grátis virou o mapa dos nossos contatos. A rede social grátis virou o cadastro biométrico da humanidade. O mecanismo de busca grátis sabe mais sobre cada um de nós do que nossas próprias mães. E agora chega o estúdio audiovisual grátis, uma máquina que precisa ler o roteiro que você pensou, interpretar as imagens que você imagina, entender o tom emocional que você pretende. Quem acha que esses dados evaporam depois do render simplesmente não entendeu o negócio em que entrou.
Há ainda a questão, sempre subestimada, de quem segura o botão de desligar. No momento em que milhões de produtores independentes passarem a depender de um editor hospedado em servidores alheios para existir profissionalmente, o dono do editor ganha um poder que imperador romano nenhum sonhou ter. Basta um algoritmo de moderação decidir que aquele roteiro sobre vacinas, eleições, identidade, filosofia clássica ou qualquer outro tema incômodo viola as famigeradas diretrizes comunitárias, e a obra some antes de nascer. O novo índice de livros proibidos não precisa queimar nada em praça pública, apenas recusa a renderização. Silêncio eficiente, limpo, deletável.
O conselho prático para quem pretende usar a ferramenta é o mesmo que serve para toda tecnologia corporativa contemporânea, tratá-la como se trata um lobo domesticado, com afeto vigilante. Aproveite a gratuidade, aprenda as possibilidades, produza o que precisar, mas jamais construa sua operação inteira em cima dessa fundação alheia. Mantenha arquivos locais, aprenda ferramentas abertas em paralelo, preserve a capacidade de produzir sem pedir licença. Porque o dia em que o botão mudar de cor, e ele vai mudar, só terá saída quem não entregou a chave da própria oficina.
No fundo, a pergunta que todo criador deveria se fazer diante desses presentes algorítmicos não é se a ferramenta funciona, funciona de sobra, mas sim o que ela faz com quem a usa por tempo demais. A atrofia do músculo criativo é silenciosa, começa naquele pequeno alívio de não precisar pensar no enquadramento, passa pela terceirização do roteiro, termina num sujeito incapaz de compor um parágrafo sem pedir ajuda à caixinha. A técnica deveria ser extensão da alma, não prótese permanente. E nenhuma corporação distribui extensões de alma de graça, isso, convenhamos, nunca aconteceu na história.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.