A relojoaria suíça Hautlence acaba de apresentar ao mundo o Retrovision '64, um relógio de pulso inspirado diretamente no comunicador que o Capitão Kirk abria com um gesto dramático em Jornada nas Estrelas, lá nos anos 60. O objeto é bonito, é engenhoso, e certamente custa o equivalente a um apartamento em cidade média brasileira. A pergunta que ninguém faz, mas que deveria ser feita, é a seguinte: por que, em pleno 2026, alguém olha para trás, para uma ficção científica de seis décadas atrás, e encontra ali algo mais inspirador do que tudo o que a indústria tecnológica atual consegue oferecer?
A resposta é mais simples do que parece e mais incômoda do que a maioria dos executivos do Vale do Silício gostaria de admitir. A série original de Jornada nas Estrelas nasceu numa época em que a tecnologia era imaginada como extensão das capacidades humanas, não como substituta delas. O comunicador de Kirk não coletava dados de localização, não vendia perfil comportamental para anunciante nenhum, não media batimento cardíaco para alimentar algoritmo de seguradora. Era um aparelho que fazia exatamente uma coisa, fazia bem, e deixava o capitão livre para tomar suas próprias decisões. Comparem com o smartwatch médio de hoje, que vibra no pulso a cada trinta segundos implorando atenção como um cachorro carente, e me digam qual dos dois representa progresso de verdade.
O que a Hautlence fez, talvez sem perceber a profundidade do gesto, foi resgatar uma ideia que a indústria tecnológica abandonou há pelo menos quinze anos: a de que um objeto pode ser ao mesmo tempo funcional e belo, preciso e artesanal, sem precisar estar conectado a servidor nenhum, sem precisar de atualização de firmware, sem precisar de termos de serviço que ninguém lê e que autorizam sabe Deus o quê. Um relógio mecânico suíço é soberania no pulso. Ele funciona porque engrenagens se encaixam com precisão micrométrica, não porque um data center no Oregon está de pé. Se amanhã a internet inteira cair, o Retrovision '64 continua marcando as horas. O mesmo não se pode dizer do seu smartwatch favorito, que vira um bracelete caro e inútil no instante em que perde sinal.
Há algo de profundamente revelador no fato de que a ficção científica dos anos 60 imaginava o futuro com mais dignidade do que o futuro real conseguiu entregar. Naquela época, os criadores de ficção pressupunham que a humanidade usaria a tecnologia para explorar o desconhecido, para expandir fronteiras, para ir onde nenhum homem jamais esteve, como dizia a abertura. Ninguém nos anos 60 imaginou que o grande uso da computação portátil seria viciar adolescentes em vídeos de quinze segundos e vender dados pessoais para corretores de publicidade. A distância entre a visão de Gene Roddenberry e a realidade entregue por certos gigantes da tecnologia contemporânea não é apenas decepcionante, é moralmente constrangedora.
Kirk compraria o Retrovision '64? Provavelmente não, porque o capitão da Enterprise tinha coisas mais urgentes para fazer do que ostentar no pulso. Mas entenderia o espírito da coisa. Entenderia que existe nobreza em construir algo com as mãos, com precisão, com propósito claro, sem segundas intenções embutidas no código. Num mundo em que cada dispositivo eletrônico é potencialmente um delator de bolso, um aparelho de vigilância consentida que as pessoas compram com o próprio dinheiro, um relógio que só marca as horas e honra uma ficção decente é, paradoxalmente, o objeto mais revolucionário que se pode usar no pulso. O futuro que nos prometeram era Jornada nas Estrelas. O que nos entregaram foi um panóptico portátil com notificações push.
Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.