O número é 45,2. Para quem não está familiarizado com a escala do ICEI da CNI, tudo abaixo de 50 significa que o empresário industrial brasileiro olha para o futuro e vê escuridão. Pois bem, 45,2 é o menor nível desde julho de 2020, quando o país estava trancado em casa, hospitais lotavam e ninguém sabia se a economia sobreviveria ao ano. A diferença, e ela é brutal, é que em 2020 havia uma pandemia. Havia um choque externo, imprevisível, contra o qual nenhuma política econômica do mundo tinha resposta pronta. Em abril de 2026, não há pandemia nenhuma. Há apenas Brasília.
Olha, me diz uma coisa: que tipo de governo eleva tarifas de importação sobre mais de 1.200 produtos em fevereiro, com alíquotas que vão de 7% a 25%, e dois meses depois recua zerrando tarifas para 191 itens de bens de capital e informática por quatro meses? Que tipo de gestão econômica acha que o setor produtivo funciona como barraca de camelô, onde você muda o preço da mercadoria conforme o humor do dia? A resposta é simples: o tipo de governo que não entende o que é confiança. Confiança não se decreta, não se fabrica com MP e não se reconquista com coletiva de imprensa. Confiança se constrói com regras estáveis, previsibilidade jurídica e, sobretudo, com a humildade de não tentar microgerenciar cada engrenagem de uma economia de 200 milhões de pessoas. Mas humildade nunca foi o forte de quem acha que R$ 15 bilhões do Plano Brasil Soberano vão compensar o estrago que a própria caneta presidencial causou.
A Selic está em 14,75% ao ano. A inflação acumulada já bateu 4,14%, e a projeção do Focus subiu pela quinta semana consecutiva para 4,71%, estourando o teto da meta. Quer dizer, o Banco Central aumenta juros para conter a inflação que o próprio governo alimenta com gastança fiscal, e o industrial, espremido entre crédito caro e demanda encolhendo, é quem paga a conta dos dois lados. É o velho mecanismo que qualquer dono de padaria entende, mas que parece escapar à compreensão dos doutores de Brasília: quando você encarece o dinheiro e ao mesmo tempo encarece os insumos, o sujeito que produz não tem para onde correr. Ele para de investir. E é exatamente isso que está acontecendo. A própria CNI aponta que indústrias já planejam reduzir investimentos em 2026. Quinze setores industriais em queda. Quatro das cinco regiões do país no vermelho. Não é recessão pontual, é erosão estrutural, lenta, silenciosa, como cupim em viga mestra.
O mais perverso dessa história é que ninguém em Brasília vai admitir a causa. Vão culpar o cenário externo, a escalada geopolítica no Oriente Médio, o preço do petróleo, a herança maldita de sempre. Vão inventar um programa novo, com nome pomposo e verba bilionária, para "estimular" a indústria que eles mesmos estrangularam. E o ciclo se repete: a intervenção gera distorção, a distorção gera demanda por nova intervenção, e a cada volta do parafuso o setor produtivo fica mais dependente do governo e menos capaz de andar com as próprias pernas. É assim que se transforma uma economia de mercado numa economia de balcão, onde o sucesso de uma empresa depende menos da qualidade do seu produto e mais da qualidade do seu lobista.
Há quem compare o momento atual com 2015-2016, e a comparação não é descabida. Aquela foi a segunda pior sequência de pessimismo industrial da história, e a atual já caminha para rivalizar com ela. Mas há uma diferença que deveria tirar o sono de qualquer um: em 2015 o país pelo menos reconhecia que estava em crise. Havia um diagnóstico, por mais tardio que fosse. Em 2026, o governo anuncia crédito subsidiado, faz live comemorando meta fiscal requentada e age como se 45,2 pontos no ICEI fossem ruído estatístico. Não é ruído. É o som de portões de fábrica se fechando, de planos de expansão sendo engavetados, de capital produtivo procurando qualquer jurisdição no planeta onde as regras do jogo não mudem a cada dois meses.
O empresário industrial brasileiro não está em crise de confiança. Está em crise de paciência. E paciência, diferente de crédito subsidiado, não se recompõe com canetada.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.