A notícia chega seca, quase envergonhada, como quem entrega boletim ruim escondendo o rosto. A confiança dos fabricantes britânicos despencou ao menor patamar desde o auge da pandemia de COVID-19, quando o mundo estava literalmente trancado em casa e as linhas de produção rodavam a vapor. A pergunta que nenhum editorial respeitável do Financial Times vai fazer é a mais óbvia: que vírus é esse agora? Porque fábrica não fecha sozinha, e empresário não perde confiança por capricho. Alguém, em algum gabinete, está fazendo isso acontecer.
E está, sim. A ilha que inventou a revolução industrial, que ensinou o mundo o que era uma tecelagem mecanizada antes de qualquer outro povo sonhar com isso, agora sufoca suas próprias chaminés com uma carga tributária sobre empregadores que só aumentou, um custo de energia que virou piada de mau gosto graças à obsessão verde, e uma pilha de regulações pós-Brexit que prometeram libertar o empreendedor e terminaram fazendo o oposto. O britânico que tenta abrir uma oficina metalúrgica hoje enfrenta mais formulário do que o súdito do czar enfrentava em 1890. Não é ironia, é tragédia.
Quer dizer, siga o dinheiro e a coisa fica clara. Os subsídios à energia renovável, as transferências para o setor de serviços financeiros da City, os pacotes para a indústria verde apadrinhada, tudo isso tem um financiador específico: o galpão industrial de Birmingham, a siderúrgica de Port Talbot, a pequena fábrica de autopeças em Coventry. O que o governo chama de "transição energética" e "economia do futuro" é, traduzido para o português dos adultos, confisco disfarçado. Alguém paga pela festa, e quem paga é justamente quem está parando de acreditar que vale a pena continuar produzindo.
O índice de confiança não é um termômetro qualquer. Ele mede aquilo que nenhuma planilha de tesouro captura: a disposição do sujeito que acorda às cinco da manhã para tocar uma fábrica de continuar acordando. Quando esse sujeito perde a fé, a economia real apaga a luz antes que qualquer estatística de PIB registre o apagão. E é exatamente o que está acontecendo. O dado visível é a queda da confiança. O invisível, e mais grave, é a decisão silenciosa de milhares de empresários de não contratar o próximo funcionário, não encomendar a próxima máquina, não renovar o próximo contrato.
Há uma arrogância peculiar no planejador moderno que acredita poder recalibrar uma economia inteira mexendo em alavancas fiscais como quem ajusta um termostato. A Grã-Bretanha é o laboratório perfeito dessa pretensão fatal. Cada nova tentativa de "estimular setores estratégicos" apenas desvia capital de onde ele seria produtivo para onde ele será desperdiçado, e cada desvio desses gera a próxima crise que demandará a próxima intervenção. É a espiral clássica, conhecida há pelo menos um século, ignorada há pelo menos o mesmo tempo.
O mais triste é que os ingleses já souberam disso. Tiveram os pensadores, tiveram a prática, tiveram o império comercial que provou na carne o que funciona. E agora, com a mesma solenidade com que outrora defendiam o livre comércio contra as tarifas do continente, elegem governos que fazem na própria casa o que antes combatiam no estrangeiro. Não é queda de confiança dos fabricantes, é rendição da civilização industrial que esses fabricantes representam. E quando a oficina fecha, não é só o PIB que encolhe, é um jeito de ser no mundo que se apaga.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.