A confiança do consumidor na Austrália caiu 5,2% em setembro e o coro dos comentaristas oficiais entrou em cena com aquela cara de quem descobriu que a água molha. Pois é, o australiano acordou desconfiado. Que espanto. Alguém aí achou mesmo que o cidadão, depois de ver o preço do supermercado subir mês após mês, o aluguel virar um segundo salário e a conta de energia se transformar em enigma matemático, ia continuar sorrindo para o pesquisador com aquele otimismo bovino que a mídia econômica adora fabricar em planilha?

O truque aqui é velho e cansado. Quando o governo expande crédito, quando o banco central mantém a taxa de juros em patamar artificial, quando a impressora trabalha nos bastidores para financiar gastança que ninguém teve coragem de aprovar em orçamento honesto, o efeito visível é o boom. Emprego, consumo, imóvel subindo, todo mundo se sentindo rico. O efeito invisível, aquele que os jornais só descobrem quando já está no colo do consumidor, é a corrosão silenciosa do poder de compra. E aí, quando a conta chega, o mesmo economista que aplaudia o estímulo aparece na televisão com ar preocupado dizendo que a queda da confiança é um "sinal misterioso". Não é mistério nenhum. É o dono do bolso descobrindo que foi enganado.

Repare no que ninguém quer dizer em voz alta. A Austrália, que já foi vitrine de gestão prudente, entrou de cabeça na mesma receita fracassada que estraga toda economia ocidental há duas décadas. Gasto público em expansão contínua, regulação empilhada em cima de regulação, banco central que se acha psicólogo do mercado e não guardião da moeda, e um sistema imobiliário inflado por crédito barato que transformou casa própria em fantasia geracional. O jovem australiano de trinta anos hoje trabalha o dobro do que trabalhou o pai para comprar metade do que o pai comprou. E ainda tem quem se pergunte por que a confiança caiu.

Siga o dinheiro e a paisagem fica clara. Quem lucra com juro baixo prolongado? O tomador grande, o especulador imobiliário, o banco que empresta na atacado e vive de spread. Quem paga? O poupador, o aposentado que vê a renda fixa derreter, o assalariado que perde compra a cada mercado. É transferência de riqueza de baixo para cima disfarçada de política monetária, e o pesquisador estranha que o cara lá embaixo esteja mal-humorado. Quer dizer, é preciso um doutorado para não enxergar isso.

E tem o detalhe delicioso da narrativa oficial. Cai a confiança, e a resposta será qual? Mais estímulo. Mais programa de auxílio. Mais intervenção. Ou seja, a doença virou remédio, e o remédio vira nova dose da doença. É o ciclo perfeito da tutela estatal, aquela mãozinha suave que nunca oprime com cassetete mas sufoca com formulário, subsídio direcionado e ministério novo. O australiano não está deprimido por acaso, está deprimido porque intui, mesmo sem vocabulário técnico, que perdeu o controle sobre o próprio destino econômico. E intuição de dono de casa vale mais do que qualquer índice trimestral montado por gente que nunca fez feira.

O consumidor não caiu de confiança. Ele acordou. E acordar num sistema construído para dormir é sempre o começo do fim da festa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.