O índice Westpac-Melbourne de sentimento do consumidor australiano caiu de 91,6 para 80,1 em abril, uma derrocada de 12,5%, a maior desde março de 2020, quando o mundo inteiro estava trancado em casa sem saber se ia morrer de vírus ou de tédio. Só que desta vez não há pandemia. Há algo mais ordinário e mais previsível: um governo que passou décadas regulando, taxando e subsidiando o setor de energia até transformar um país que flutua sobre carvão, gás e urânio num lugar onde a gasolina ultrapassa 2,30 dólares australianos por litro e mais de 500 postos ficam sem combustível. Me diz uma coisa, como é que um dos maiores exportadores de energia do planeta consegue ter reservas para apenas 39 dias de abastecimento? A resposta é tão velha quanto a própria burocracia: décadas de políticas energéticas que puniram a produção doméstica em nome de metas climáticas, mandatos de transição e regulações que tornaram mais barato exportar gás para o Japão do que vendê-lo em Sydney.
A reação do governo foi previsível como amanhecer em dia de sol. Cortaram pela metade o fuel excise, o imposto federal sobre combustíveis, a partir de primeiro de abril, uma redução de 26,3 centavos por litro válida até o fim de junho. Flexibilizaram padrões de qualidade do combustível por 60 dias para liberar uns 100 milhões de litros a mais por mês. Aprovaram um pomposo National Fuel Security Plan no Gabinete Nacional. Quer dizer, o governo que passou anos sufocando a produção de energia fóssil agora corre para aliviar o preço do produto que ele mesmo encareceu. É como o sujeito que quebra sua perna e depois se gaba de ter comprado a muleta mais bonita da loja. O corte de imposto não resolve nada de estrutural. É um band-aid fiscal que dura três meses, custa bilhões ao Tesouro e, quando acabar, o preço volta ao que era, ou pior. Alguém viu esse filme antes? Os australianos, com certeza: em 2022, o governo Morrison fez exatamente a mesma coisa, com exatamente o mesmo resultado temporário e exatamente a mesma ressaca.
Enquanto isso, o Reserve Bank of Australia decidiu, por cinco votos contra quatro, subir a taxa básica de juros em 25 pontos-base para 4,10%. A inflação anual está em 3,7%, bem acima da meta de 2 a 3%, a habitação sobe 7,2% ao ano e a eletricidade, olha só, 37% ao ano. Trinta e sete por cento. Num país que tem sol para dar e vender, vento sobrando e uma das maiores reservas de urânio do mundo, a conta de luz sobe quase 40% ao ano. Isso não é acidente. Isso é o resultado direto de escolhas políticas que priorizaram sinalização de virtude ambiental sobre fornecimento real de energia. O banco central sobe os juros para conter uma inflação que é, em boa medida, filha da própria política energética do governo. O governo corta impostos para aliviar o preço que sua política encareceu. E o cidadão, espremido entre juros mais altos e preços que não caem, perde a confiança. Surpreendente seria se não perdesse.
Olha, o que está acontecendo na Austrália é um caso de manual. O medo de perder o emprego atingiu o maior nível em cinco anos e meio, excluindo a pandemia, o maior em uma década. As expectativas de curto prazo voltaram aos patamares da crise do custo de vida de 2022-2023. E o mecanismo é sempre o mesmo: o governo intervém no mercado de energia, distorce sinais de preço, desestimula investimento em produção, e quando a escassez inevitavelmente chega, intervém de novo, agora cortando imposto e afrouxando regra, gerando déficit fiscal que vai ser coberto com mais dívida ou mais impressão de moeda, o que por sua vez alimenta a inflação, o que por sua vez exige mais aperto monetário, o que por sua vez estrangula o consumidor. É uma espiral que qualquer pessoa com bom senso e uma calculadora consegue prever, mas que, por algum motivo misterioso, sempre surpreende quem está em Canberra.
A tentação dos governos diante de crises assim é sempre a mesma: mais controle. Mais planos nacionais, mais comitês, mais regulação emergencial, mais subsídio temporário que vira permanente. Ninguém em posição de poder jamais conclui o óbvio, que o problema é o excesso de poder, não a falta dele. O consumidor australiano não está perdendo a confiança porque falta um plano nacional de segurança energética. Está perdendo a confiança porque trinta anos de planos nacionais o deixaram pagando 2,30 por litro de gasolina num dos países mais ricos em recursos naturais do planeta. O que a Austrália precisa não é de mais intervenção criativa. É de menos intervenção, ponto. Libere a produção, pare de punir quem gera energia, deixe o preço funcionar como informação e não como inimigo político. Mas isso, claro, exigiria que os políticos admitissem que o problema são eles. E pedir humildade a político é como pedir dieta a glutão diante de um banquete.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.