O índice Westpac-Melbourne Institute de confiança do consumidor australiano subiu modestamente em maio, e a manchete vendeu isso como melhora. Olha, quando o noticiário precisa enfeitar movimento estatístico mínimo com a palavra "melhora", já se sabe que o paciente está pior do que o termômetro deixa transparecer. O número segue cravado em território pessimista, abaixo da linha que separa otimismo de medo, e está lá há tempo suficiente para que ninguém mais lembre como era viver acima dela. O australiano médio não acordou esperançoso, ele acordou cansado de ser pessimista e decidiu mentir um pouco para o entrevistador.
O detalhe que a manchete suaviza é o motivo concreto do mal-estar, e ele se chama custo de vida. A inflação australiana foi alimentada pela mesma receita de sempre, expansão monetária generosa durante a pandemia, gasto público sem freio, juros artificialmente comprimidos por anos a fio, e quando a conta chegou, chegou pelo correio do supermercado, da conta de luz e do aluguel. O banco central, claro, agora se apresenta como bombeiro do incêndio que ele próprio ajudou a atear, subindo juros para domar o monstro que liberou. É um arranjo magnífico, quem causa o problema cobra para resolvê-lo, e ainda recebe aplausos por isso.
Há um ponto que os analistas de banco evitam tocar porque toca no fígado do empregador deles. A confiança do consumidor não é uma variável psicológica flutuante, é o termômetro frio de quem está fazendo as contas em casa e percebendo que o salário compra menos coisa do que comprava há dois anos. Quando o sujeito vai ao caixa e vê o preço, ele não está deprimido, ele está informado. Chamar isso de pessimismo é o eufemismo que a classe falante usa para não dizer que o cidadão comum aprendeu a ler antes do economista aprender a contar.
E aqui entra o truque que o consumidor médio já farejou, mesmo sem ter lido um livro de economia na vida. O governo gasta, o banco central financia, a moeda perde valor, os preços sobem, o assalariado empobrece, e quando ele reclama, dizem que ele está com a confiança baixa. Confiança em quê, exatamente? Em quem prometeu estabilidade e entregou erosão? Em quem prometeu juro baixo para sempre e agora aperta o garrote? O consumidor australiano não é pessimista por temperamento, ele é realista por necessidade, e essa diferença passa batido em quase toda análise séria sobre o tema.
A lição que a Austrália oferece de graça para quem quiser aprender é simples e antiga. Não existe confiança decretada, não existe humor coletivo construído por discurso oficial, não existe sentimento econômico positivo enquanto o cidadão sente que está perdendo terreno todo mês. Pode-se enfeitar o gráfico, ajustar a metodologia, escolher o recorte temporal mais favorável, nada disso resolve o fato de que o sujeito sabe quanto custava o pão ano passado e sabe quanto custa hoje. A memória do bolso é mais confiável que qualquer pesquisa de opinião.
Enquanto banco central algum admitir publicamente que inflação é consequência direta de impressão de moeda e gasto público descontrolado, e enquanto governo algum aceitar que prosperidade não se manufatura via planilha em Camberra, Brasília ou onde quer que seja, o consumidor seguirá pessimista. E fará bem em seguir. Otimismo diante de gestão econômica irresponsável não é virtude, é distração. O australiano que respondeu "estou um pouco melhor" para a pesquisa este mês provavelmente vai mudar de ideia quando abrir a próxima conta de energia. E aí o índice cai de novo, e a manchete vai chamar isso de surpresa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.