O roteiro é tão velho que dá preguiça de assistir de novo. Mísseis voam no Oriente Médio, o barril do Brent dispara, e imediatamente os oráculos de Frankfurt aparecem nas telas dos terminais Bloomberg sussurrando que talvez, quem sabe, seja necessário um apertinho na taxa básica de juros. A narrativa oficial é que o conflito com o Irã pressiona o petróleo, o petróleo pressiona a inflação, e a inflação obriga o banco central a agir. Limpo, técnico, inevitável. Só que está faltando uma década inteira de contexto nessa equação preguiçosa, e é justamente nessa década escondida que mora o esqueleto no armário.

Me diz uma coisa: de onde saiu o estoque monumental de euros que está circulando pela economia europeia desde 2015? Não foi do trabalho do operário alemão nem da poupança do pequeno comerciante italiano. Saiu da impressora, do quantitative easing, dos programas de compra de ativos, da taxa negativa que durou anos a fio, da farra fiscal pandêmica financiada com dinheiro novo. Quando você infla a oferta monetária em proporções siderais durante uma década e meia, a conta chega. Sempre chega. A única pergunta é qual será o pretexto escolhido para apresentá-la ao público. Desta vez o pretexto se chama aiatolá.

O truque é elegante na sua desonestidade. O burocrata de banco central nunca, jamais, em hipótese alguma, admite que a inflação que ele combate hoje é filha legítima da expansão monetária que ele mesmo promoveu ontem. A inflação tem que ser sempre culpa de algo externo, exógeno, imprevisível: foi o vírus, foi a guerra da Ucrânia, foi a cadeia produtiva, foi o clima, agora é o Irã. Qualquer coisa serve, contanto que tire o holofote da máquina de imprimir dinheiro que opera ininterruptamente no coração do sistema. É o velho golpe da janela quebrada elevado à enésima potência: o que se vê é o míssil iraniano, o que não se vê são os trilhões de euros despejados sem lastro produtivo.

E quem paga essa fatura travestida de política monetária prudente? O sujeito que pegou financiamento imobiliário de trinta anos em Madri, a pequena padaria em Lisboa que rolava capital de giro a juros baixos, a família média alemã que vê o aluguel subir e o salário real evaporar. Subir juros num continente já estagnado, com crescimento pífio e demografia em colapso, é receita para recessão garantida. Mas o banqueiro central não perde o emprego com recessão; perde se for chamado de irresponsável monetário. Então prefere matar a economia real a admitir que distorceu o sistema de preços por uma década inteira mexendo na taxa básica como quem brinca de Lego.

Há ainda o detalhe geopolítico que ninguém comenta em voz alta. A Europa apostou todas as fichas numa matriz energética que depende de gás russo, petróleo do Golfo e boa vontade alheia, enquanto fechava usinas nucleares funcionais em nome de uma agenda verde decidida em conferências regadas a champanhe. Agora descobre que energia barata e abundante não é detalhe técnico, é pré-condição civilizatória. Sem ela, qualquer tremor no Estreito de Ormuz transforma o orçamento doméstico do cidadão comum em campo de batalha. O conflito com o Irã não está criando vulnerabilidade europeia; está apenas revelando a vulnerabilidade que décadas de planejamento centralizado construíram pacientemente.

No fundo, a história toda é uma confissão involuntária. Quando o seu banco central precisa rezar por estabilidade no Oriente Médio para conseguir cumprir a meta de inflação, é porque ele perdeu o controle do próprio instrumento há muito tempo. A taxa de juros deixou de ser sinal de mercado e virou cabo de força política, puxado de um lado pelos governos endividados que precisam de dinheiro barato e do outro pelos efeitos colaterais de toda a expansão pretérita. O cidadão fica no meio, espremido, pagando a conta em silêncio enquanto os boletins econômicos celebram a coragem técnica dos guardiões da moeda. Guerra do outro lado do mundo virou desculpa para crime cometido dentro de casa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.