O Congo registrou setenta e um casos novos de ebola em um único dia, o total saltou para quatrocentos e cinquenta e dois, e já são oitenta e duas mortes pela cepa Bundibugyo, uma das mais letais que se conhece. Diante disso, a Organização Mundial da Saúde fez o que sabe fazer melhor, que é declarar emergência internacional. A pergunta que ninguém faz é por que, depois de décadas de surtos recorrentes na mesma região, com os mesmos vetores, nas mesmas aldeias esquecidas pelo Estado congolês e mimadas pelas agências multilaterais, o resultado é sempre o mesmo. A resposta é desconfortável, e por isso ninguém quer ouvi-la.
O ebola, como qualquer doença infecciosa em zona de pobreza extrema, é um fenômeno de infraestrutura ausente, de saneamento inexistente, de propriedade insegura e de governo predatório. Onde existe mercado livre, existe geladeira, existe água tratada, existe hospital privado concorrendo por paciente, existe estrada que permite isolar o foco antes da explosão. Onde existe apenas o Estado e suas ONGs parceiras, existe ajuda humanitária chegando atrasada, em caminhão que enguiça na lama, com vacina vencida e funcionário que cobra propina para deixar passar. O Congo é o exemplo paradigmático do continente sequestrado por uma elite cleptocrática que vive justamente da miséria que finge combater.
Siga o dinheiro e o quadro fica claro. A cada surto declarado emergência internacional, jorram centenas de milhões de dólares de fundos europeus, americanos e de fundações privadas para um arquipélago de organismos que ninguém audita. Parte do dinheiro vira contrato de logística para empresas amigas do regime local, parte vira diária de hotel cinco estrelas em Kinshasa para consultor internacional, parte vira relatório PDF que ninguém lê, e uma fração mínima chega ao camponês que enterra o filho no quintal. O surto termina, a verba volta ao zero, a estrutura permanente nunca é construída, e quando o vírus reaparece a engrenagem se reinicia. É um modelo de negócios, não um sistema de saúde.
E há a dimensão política que ninguém quer tocar. Toda emergência internacional declarada por Genebra abre precedente para protocolos de circulação, restrições de fronteira, exigências de comprovante vacinal, vigilância digital de viajantes e cooperação compulsória de governos soberanos com diretrizes redigidas por funcionários não eleitos. Quem viveu o período recente sabe que esse figurino, costurado para epidemia africana de cepa rara, é o mesmo que volta a ser vestido em escala global quando convém. A emergência justifica o aparato, o aparato sobrevive à emergência, e o cidadão comum descobre que ganhou um novo tutor que não pediu.
O mais cínico é a indignação seletiva. As mesmas vozes que se comovem com cada caso novo no Congo são as que defenderam, durante anos, sanções econômicas e bloqueios comerciais que destruíram a capacidade produtiva de meia África. Os mesmos que choram pelas oitenta e duas mortes da cepa Bundibugyo aplaudiram, com sorriso de inauguração, o pacote regulatório climático que vai impedir o continente de construir as termelétricas a carvão que tirariam suas aldeias da idade da pedra. Salvar vidas africanas é nobre quando custa dinheiro do contribuinte do norte, mas inaceitável quando custa cinco graus de hipocrisia ambientalista.
O ebola voltará. Voltará no ano que vem, no próximo, e na próxima década, porque ninguém em posição de decidir tem interesse genuíno em que ele suma. A indústria do surto é grande demais, lucrativa demais, e politicamente útil demais para ser desmontada. Enquanto isso, oitenta e duas pessoas estão mortas, quatrocentas e cinquenta e duas estão doentes, e a única coisa que cresce mais rápido que o vírus é o orçamento dos que prometem combatê-lo.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.