O conselheiro do líder supremo do Irã veio a público, com a indignação treinada de quem já fez isso muitas vezes, dizer que o presidente americano "trai a diplomacia" ao manter sanções e ao mesmo tempo apresentar uma lista de exigências consideradas excessivas. A queixa é apresentada como ofensa moral, como se o mundo tivesse o dever de tratar o regime dos aiatolás como um parceiro comercial respeitável, e não como o que ele é, ou seja, uma teocracia armada que financia milícias, sequestra estrangeiros, executa manifestantes nas ruas de Teerã e há quarenta anos transforma cada negociação internacional em manobra para ganhar tempo no programa nuclear. Quer dizer, quando o regime que inventou a diplomacia de reféns acusa alguém de trair a diplomacia, o cinismo já passou do ponto de fervura.
Olha, é preciso entender o que está realmente em cima da mesa, e não a fantasia que o conselheiro tenta vender. Sanções não são caprichos. Elas existem porque o regime iraniano, ao longo de décadas, escolheu cuidadosamente cada conflito do qual participa, financia o Hezbollah, financiou o Hamas até o esgotamento operacional recente, sustenta os houthis que afundam navios civis no Mar Vermelho, manteve a máquina assassina de Assad de pé até o último suspiro, e nunca abriu mão da centrifugação de urânio em níveis que nenhum país sem ambição militar precisaria. Tirar as sanções sem contrapartida verificável é o equivalente a devolver o cofre ao ladrão porque ele prometeu, dessa vez, não roubar.
Me diz uma coisa, qual é o histórico de honestidade nuclear desse regime nos últimos vinte anos? O acordo de 2015 foi celebrado como triunfo da diplomacia e desmoronou diante das evidências de enriquecimento clandestino, de instalações não declaradas em Fordow, de quantidades de urânio enriquecido a 60% que nenhuma usina civil exige. Quem entrega dinheiro descongelado para um regime que comprovadamente mente sobre seu próprio programa atômico não está praticando diplomacia, está financiando a bomba que vai negociar com ele depois. E o cidadão americano, o europeu, o israelense, o iraniano comum que apanha na rua por não usar véu, todos pagam essa conta de formas diferentes.
Siga o dinheiro e a peça inteira se ilumina. As sanções pressionam exatamente o ponto que o regime mais protege, ou seja, a Guarda Revolucionária, que não é exército nacional, é um conglomerado empresarial paramilitar com participação em petróleo, construção, telecomunicações e contrabando. Cada dólar que entra sem condição engorda essa estrutura, não o povo iraniano. A inflação iraniana, que já passou de 40% ao ano em diversos momentos da última década, não vem das sanções, vem da impressão desenfreada de rial para sustentar gastos militares no exterior e subsídios clientelistas internos. A casta dirigente vive em Teerã norte de carro importado enquanto o operário em Mashhad não consegue comprar frango. Quando o conselheiro reclama de "exigências excessivas", está reclamando que estão pedindo justamente o que faria o povo dele respirar.
Existe uma palavra para um regime que financia guerras em cinco países simultaneamente, que executa adolescentes por dançar em vídeos do TikTok, que mantém estrangeiros como moeda de troca em prisões, e que ainda assim aparece na imprensa internacional como vítima de "exigências excessivas". Essa palavra é propaganda, e funciona porque parte considerável da imprensa ocidental compra atacado a narrativa de que negociar significa ceder, e que cobrar significa hostilizar. Não significa. Negociar com tirania significa exigir, verificar, condicionar e desconfiar, em todas as etapas, sem exceção. O resto é teatro útil para quem precisa de tempo, e tempo é exatamente o que centrífugas em movimento transformam em material físsil.
A diplomacia genuína não é a arte de agradar o adversário, é a arte de fazer com que o adversário entenda que o custo de persistir no caminho atual é maior que o custo de mudar de rumo. Chamar isso de traição é o velho truque de quem prefere o tabuleiro fácil. Sanções são caras, exigências são desconfortáveis, verificações são humilhantes para quem mente, e tudo isso é exatamente o que distingue diplomacia de capitulação. Quando o conselheiro do aiatolá grita traição, está confessando, sem perceber, que a estratégia americana atual está funcionando.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.