O ritual se repete com a precisão de um relógio suíço descalibrado. O conselho do Axis Bank, aquele que figura entre os maiores bancos privados da Índia, sentou-se em mesa polida, aprovou um dividendo modesto para os acionistas atuais e, no parágrafo seguinte da mesma ata, autorizou uma captação que beira os quatro bilhões e duzentos milhões de dólares no mercado. Olha, qualquer um que tenha lido três linhas sobre como funciona o sistema bancário moderno reconhece o passo de dança. Distribui-se uma gota para sustentar a narrativa de banco saudável, ao mesmo tempo em que se abre o portão para um caminhão de capital novo entrar pelos fundos. O acionista de hoje recebe trocados; o acionista de amanhã paga a conta.

Quer dizer, não há nada de criminoso na operação, e é justamente aí que mora o problema mais interessante. O sistema bancário fracionário é uma engenhoca legalizada que permite às instituições viverem permanentemente no fio da navalha entre o que devem e o que possuem. Quando o capital regulatório aperta, quando os ratios de Basileia começam a piscar amarelo, a saída padrão é sempre a mesma: emite-se papel novo, dilui-se quem está dentro e celebra-se a operação como sinal de fortaleza. É o equivalente financeiro daquele sujeito que troca de carro para não ter que admitir que o anterior nunca foi pago.

Me diz uma coisa, em qualquer outro setor da economia real, uma empresa que distribuísse dividendos enquanto simultaneamente pedisse bilhões emprestados ao mercado seria vista com suspeita imediata. A padaria da esquina não tem esse luxo retórico. O dono da oficina mecânica não consegue convencer o gerente do banco a financiar suas férias enquanto saca dinheiro do caixa para o churrasco de domingo. Mas no andar nobre das instituições financeiras, essa contabilidade lunar é apresentada como sofisticação corporativa, e a imprensa especializada reproduz o comunicado oficial sem mover uma sobrancelha.

Siga o dinheiro e a história fica mais clara. Os bancos centrais asiáticos, seguindo o figurino global, mantiveram juros baixos por tempo demais, alimentaram balanços inchados de crédito e agora colhem balanços que precisam de injeção constante de capital fresco para parecerem respeitáveis aos olhos dos reguladores. O Axis Bank não é caso isolado, é sintoma. Quando o dinheiro é fabricado em escala industrial pela autoridade monetária, os bancos privados funcionam como reservatórios intermediários que precisam ser periodicamente esvaziados e reabastecidos. O acionista minoritário é o vagão de carga dessa locomotiva, e os dividendos simbólicos são o apito que toca enquanto ele é empurrado para o trilho seguinte.

O detalhe que ninguém comenta é o custo invisível dessa mecânica. Cada bilhão captado pelo Axis Bank é capital que deixa de financiar uma fábrica em Pune, uma startup em Bangalore, uma plantação em Punjab. O capital é um recurso escasso, e quando ele é sugado pelo aparato bancário para tapar buracos regulatórios, a economia produtiva fica mais magra, mesmo que os indicadores oficiais sigam celebrando o "crescimento do setor financeiro". Há uma diferença abissal entre criar riqueza e reorganizar passivos, e a confusão sistemática entre as duas coisas é o truque de mágica favorito do capitalismo de balcão regulatório em que vivemos.

No fim das contas, o investidor que se anima com a notícia do dividendo precisa entender que está recebendo uma pequena parte daquilo que ele próprio, ou alguém parecido com ele, vai entregar de volta na próxima rodada de captação. É um sistema circular onde o dinheiro entra pela porta da frente como aplauso e sai pela porta dos fundos como diluição. Banco saudável não pede esmola bilionária ao mercado; banco saudável distribui lucro genuíno e cresce com capital próprio gerado pela operação. Tudo o resto é coreografia para sustentar a ilusão de solidez enquanto a estrutura range.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.