A Confederação Nacional da Indústria publicou agora a revelação de que a construção civil brasileira tem produtividade baixa porque é pouco industrializada. Genial. Qualquer pedreiro de obra em São Paulo já sabia disso há trinta anos, olhando para o vizinho coreano que ergue prédio de quarenta andares com peças pré-fabricadas enquanto aqui ainda se mistura cimento no chão com pá. A pergunta que a CNI não faz, porque seus associados vivem desse arranjo, é simples: por que um país com a sétima maior economia do mundo constrói como se fosse 1950? A resposta incomoda muita gente que paga a conta do almoço dos congressos da entidade.

Olha, nenhum setor industrial no Brasil recebeu tanto mimo regulatório, tanto subsídio cruzado, tanto financiamento camarada do BNDES, da Caixa, do FGTS, do Minha Casa Minha Vida e de meia dúzia de programas federais quanto a construção civil. E o resultado dessa enxurrada de dinheiro público é uma indústria que produz, por trabalhador, menos do que produzia há vinte anos. Quando se garante mercado cativo, comprador estatal e crédito subsidiado, o empresário não tem o menor incentivo para investir em tecnologia, em método construtivo moderno, em pré-fabricação. Para que se modernizar se a Caixa compra qualquer coisa que tenha quatro paredes e um telhado?

A trilha do dinheiro aqui é educativa. Cada real de subsídio habitacional desovado pelo governo passa por construtora, vira margem, vira doação eleitoral, vira congresso da CNI em hotel cinco estrelas, e no final ergue um conjunto habitacional que cai aos pedaços em cinco anos. A produtividade não sobe porque ninguém quer que ela suba. Industrializar significa demitir mestre de obras, fechar canteiro, romper com sindicato, enfrentar fiscal de prefeitura que vive de carimbar projeto antigo. Por que faria isso o empresário que ganha mais mantendo a coisa exatamente como está? O incentivo que o Estado oferece é para a estagnação, não para o salto.

E tem o lado das normas, que merecem capítulo próprio. O Brasil tem mais de quatro mil normas técnicas para construção, alvarás municipais que demoram dois anos, exigências ambientais que mudam conforme o humor do procurador, código de obras que cada cidade reinventa. Quem quer trazer método industrializado para esse pântano regulatório descobre rapidamente que é mais barato continuar erguendo parede tijolo por tijolo, do jeito que o avô fazia, porque o sistema foi desenhado para premiar o atraso e punir a inovação. Não é falha do mercado. É desenho do Estado.

Quer dizer, a CNI fala em "baixa produtividade" como se fosse fenômeno natural, uma maldição climática, algo que caiu do céu. Mentira. Produtividade baixa é consequência inevitável de mercado capturado, crédito dirigido, regulação labiríntica e sindicato fortalecido por décadas de cumplicidade entre patrão, governo e central trabalhista. O empresário brasileiro de construção não é incompetente; ele apenas calculou, com precisão de engenheiro, que dá mais lucro lobar Brasília do que comprar máquina alemã. E enquanto esse cálculo permanecer correto, o brasileiro vai continuar morando em apartamento que custa o triplo do coreano e dura metade do tempo.

Me diz uma coisa: se a indústria mais protegida, mais subsidiada e mais regulada do país é também a menos produtiva, qual é exatamente o argumento para mais proteção, mais subsídio e mais regulação? A CNI não responde porque a resposta destrói o modelo de negócio dos seus filiados. Mas a resposta está ali, escrita em cada laje torta de conjunto habitacional do interior. O que se vê é o subsídio que financia a obra; o que não se vê é a indústria moderna que nunca nasceu porque o atraso pagava melhor.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.