A Associação Brasileira da Indústria de Café soltou o número e a imprensa oficial engoliu redondo: 2,29% de alta no consumo do varejo no acumulado do ano até agosto. Parece boa notícia, dessas para ilustrar reportagem de telejornal com áudio de máquina expresso ao fundo. Mas quem entende o que está por trás do balcão sabe que o brasileiro não está comprando mais café porque enriqueceu. Está comprando mais porque o café virou, junto com o arroz, uma daquelas coisas que a pessoa se recusa a tirar da vida mesmo quando tudo o mais desmorona. Chame de resistência cultural, chame de vício nacional, chame do que quiser, mas não confunda com prosperidade.
Olha, o preço do quilo do pó explodiu no último ciclo, empurrado por quebra de safra, dólar desancorado e uma política monetária que passa cera enquanto o telhado pega fogo. Quando o consumo sobe modestamente enquanto o preço dispara, isso não é sinal de demanda aquecida; é sinal de que existe um piso emocional abaixo do qual o consumidor não desce, mesmo que precise tirar o dinheiro de outro canto. E de qual canto ele tira? Da carne, do plano de saúde adiado, do sapato do filho que espera mais um mês. O cafezinho de manhã continua, o resto da vida encolhe. A estatística agregada esconde essa amputação silenciosa que acontece dentro de cada geladeira.
E aqui entra a parte que ninguém no noticiário econômico quer contar direito. Quem manda no preço do café não é apenas o clima em Minas nem o humor do especulador em Nova York. É também, e principalmente, quem decide quanto papel pintado circula na economia e a que taxa o crédito se expande. Quando a autoridade monetária financia gastança fiscal, o resultado bate primeiro nos alimentos, porque comida é o item de menor elasticidade da cesta. O sujeito adia trocar de carro, adia reformar a casa, adia comprar tênis, mas não adia o café. Por isso o preço dos itens básicos sobe primeiro e mais forte quando a impressora trabalha. A inflação começa no supermercado, não no shopping.
Vale seguir o rastro do dinheiro nesse mercado específico, porque é esclarecedor. Uma parte considerável do que se paga por um saco de café no Brasil não vai para o produtor no interior, não vai para o torrefador, não vai para o dono do mercadinho. Vai para tributo embutido em cada etapa da cadeia, do insumo agrícola ao caminhão que transporta, do combustível ao ICMS estadual, das contribuições sociais ao imposto sobre o lucro presumido do pequeno comerciante. Quando você paga um cafezinho no balcão da padaria, está pagando também um exército de servidores, um festival de subsídios cruzados e um punhado de agências reguladoras que ninguém sabe bem para que servem. O grão brasileiro é dos melhores do mundo, o problema é o peso do carona.
Chama atenção, ainda, que a alta modesta do consumo é vendida como bom sinal quando na verdade é um alerta. Se em plena crise de preços o brasileiro insiste em comprar mais café, imagine o quanto essa demanda estaria crescendo em uma economia com moeda estável, tributação civilizada e governo do tamanho que a Constituição prometeu e nunca entregou. O potencial reprimido é gigantesco, e o que a Abic mede é apenas o que sobrou depois da mordida do Leão, do baque cambial e da corrosão silenciosa do poder de compra. Chamar isso de crescimento é o mesmo que dizer que o afogado nadou bem porque conseguiu chegar até a boia.
No fim das contas, o dado da Abic é um retrato involuntário da resiliência do povo diante da incompetência de quem administra a moeda e o orçamento. O brasileiro toma seu café todo dia porque é um dos poucos rituais que ainda cabem no bolso arrombado, e transforma isso em estatística que os apologistas de plantão vão usar para dizer que está tudo indo bem. Não está. Está indo apesar. E o dia em que essa distinção ficar clara para o eleitor médio, o cafezinho da manhã vai custar bem menos, porque quem torra o poder de compra vai perder o emprego.
Com informações do Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.