A notícia chega embrulhada em papel de presente verde. A ContourGlobal, gigante do setor elétrico, vai erguer no Chile mais um complexo de energia solar com sistema de armazenamento em baterias, e a imprensa especializada repete o comunicado oficial com aquela reverência que se reserva às coisas sagradas. Investimento bilionário, megawatts limpos, transição energética em marcha. Quem ousaria questionar? Pois é exatamente isso que precisa ser feito, porque por trás de cada anúncio de "energia limpa" no Cone Sul há uma engenharia financeira que tem pouco de mercado e muito de balcão de favores.

Comecemos pela pergunta que ninguém faz. Por que uma empresa privada, supostamente operando em ambiente competitivo, escolhe o Chile para enterrar bilhões em painéis e baterias? A resposta não está no sol do Atacama, que brilha de graça desde antes do primeiro inca. Está no arcabouço regulatório montado pelo governo chileno na última década, com contratos de longo prazo a preços garantidos, isenções tributárias generosas, financiamento subsidiado por bancos multilaterais e a promessa tácita de que, se a conta não fechar, o consumidor cativo pagará a diferença na tarifa. O que se vende como ousadia empresarial é, na verdade, captura institucional vestida de pioneirismo.

Há aqui o velho truque que se repete em todos os países que abraçaram a tal transição energética como religião de Estado. Mostra-se ao público o painel reluzente, a bateria modernosa, o emprego verde criado no canteiro de obras. O que não se mostra é o pequeno empresário chileno que viu sua conta de luz subir trinta por cento nos últimos cinco anos para bancar essa festa, o trabalhador do norte do país que paga mais caro pelo combustível porque o sistema elétrico ficou mais frágil e dependente do clima, a indústria que migrou para o Peru porque lá ainda existe energia firme a preço competitivo. O emprego visível custa três empregos invisíveis, e ninguém fará essa conta no jornal de amanhã.

O detalhe mais saboroso é a palavra armazenamento. As baterias entram na equação porque, sem elas, o projeto seria simplesmente inviável, já que o sol tem o péssimo hábito de se pôr todos os dias. Mas baterias em escala industrial são tecnologia cara, com vida útil limitada, dependentes de lítio extraído em condições que fariam corar qualquer ativista do clima se ele se desse ao trabalho de visitar uma mina boliviana. O custo real desse arranjo, calculado com honestidade contábil, é múltiplo do custo de uma usina térmica a gás operando vinte e quatro horas por dia. Mas a térmica não rende foto bonita no relatório ESG, e o ESG é o que move o capital institucional que sustenta esses projetos.

Siga o dinheiro e a imagem se completa. Bancos de desenvolvimento europeus financiam o projeto a juros camaradas porque precisam cumprir metas verdes impostas por seus próprios governos. Fundos de pensão americanos compram a dívida porque seus regulamentos os obrigam a ter percentual em ativos sustentáveis. A empresa operadora recebe carbon credits que vende a poluidores do outro lado do mundo, embolsando duas vezes pela mesma molécula de CO2 não emitida. O contribuinte chileno entra na ponta final dessa cadeia pagando tarifa subsidiada, e o pobre do Atacama continua pobre, agora com uma bela vista para o mar de painéis fotovoltaicos cercados por arame farpado.

O que se chama de revolução energética é, em larga medida, a maior operação de transferência de renda da história recente, dos pagadores de imposto e tarifa para um seleto clube de empresas, bancos, consultorias e burocratas internacionais que descobriram no clima a mina de ouro que a guerra fria não conseguiu mais entregar. O Chile, que um dia foi vitrine de liberdade econômica na América Latina, vai virando aos poucos vitrine de capitalismo de compadrio com fachada sustentável. E o pior é que aplaudimos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.