A notícia chega com aquele perfume típico das fusões de fim de ciclo: a Prosus, dona da Decolar, estaria avaliando incorporar a CVC, e o preço, dizem os corredores, ficaria acima dos R$ 3,30 por ação definidos no aumento de capital de 2023. Traduzindo para quem não lê balanço como quem lê horóscopo, a CVC, que um dia foi vendida ao mercado a quase R$ 19 por ação na euforia de 2017, hoje vale tão pouco que o prêmio generoso de uma estrangeira ainda assim soa como liquidação de saldão. O turismo brasileiro, vendido aos investidores como o setor que ia decolar com a ascensão da nova classe média, virou exatamente isto: ativo barato sendo cobiçado por quem tem moeda mais forte e paciência para esperar a próxima onda.
Quem acompanhou a saga sabe que a CVC não chegou aqui por má sorte. Chegou porque foi protagonista de um modelo de negócio que se confundiu com política industrial: vender pacote parcelado em doze, dezoito, vinte e quatro vezes sem juros aparentes, num país onde dinheiro custa caro de verdade. Alguém pagou por aqueles juros, e não foi o turista que embarcou para Cancún. Foi o caixa da empresa, foi o capital de giro tomado a taxas brasileiras, foi o acionista que viu o múltiplo derreter quando a conta bateu. A festa do crédito fácil acabou, a pandemia escancarou o esqueleto, e o que restou foi uma marca conhecida com balanço estropiado, vivendo de rolagem de dívida e aumento de capital como quem vive de soro.
Olha, é preciso entender o que está realmente sendo negociado aqui. A Prosus não está comprando a CVC porque acredita no consumidor brasileiro. Está comprando porque, depois de anos de queima de caixa, o ativo virou pechincha em dólar, e a sinergia com a Decolar permite eliminar uma concorrente, consolidar margem e cortar custo redundante. É consolidação clássica de setor maduro disfarçada de crescimento estratégico. Quem aplaude esse tipo de movimento como vitória da inovação está confundindo concentração com competitividade. São coisas opostas. Mercado livre prospera com muitos players brigando; mercado capturado prospera com poucos players combinando preço sem precisar combinar nada explicitamente.
Me diz uma coisa, onde estavam os defensores da soberania nacional quando a CVC virava zumbi corporativo? Onde estava o BNDES, que nunca perde uma chance de financiar campeão nacional, mas só aparece para socializar prejuízo depois que o estrago já foi feito? A verdade incômoda é que o Estado brasileiro adora teatro de soberania quando se trata de impedir uma compra estrangeira, mas o mesmo Estado tributa a empresa local até a morte por décadas, encarece o crédito com sua gastança fiscal, distorce a economia com câmbio volátil e depois se espanta quando o capital nativo perde o ativo para quem opera em moeda estável. A pilhagem fiscal precede a venda, ela é a causa da venda.
O ponto que ninguém vê, porque é o que não se vê por definição, é o destino que aquele capital teria tido em outro arranjo. Os bilhões que a CVC torrou rolando dívida, pagando juros punitivos e mantendo modelo de negócio insustentável foram bilhões que não viraram concorrente nova, não viraram pequena agência de bairro tecnologicamente competitiva, não viraram nada além de gordura financeira para banco e prejuízo para o minoritário. A janela quebrada do balanço gerou comissão para quem estruturou aumento de capital, gerou honorário para advogado, gerou matéria para jornalista, e nada daquilo é riqueza. É deslocamento de recursos para atividades improdutivas, é o mesmo padrão de toda economia que confundiu engenharia financeira com criação de valor.
Resta o consumidor, que sempre paga a conta no fim. Com o setor consolidado nas mãos de uma estrangeira só, o brasileiro que viaja terá menos opção, preço mais firme, atendimento mais terceirizado, e a propaganda continuará dizendo que a fusão foi ótima para o cliente. Sempre é. No discurso. Na prática, oligopólio é oligopólio, e a história econômica é cemitério de promessas de que desta vez seria diferente. A CVC não está sendo vendida, está sendo enterrada com pompa, e a Prosus apenas comprou a lápide com desconto.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.