A notícia chega embrulhada na linguagem morna do mercado financeiro, aquele dialeto criado justamente para que o leigo não entenda o que está vendo. Matt Ehrlichman, COO da Porch Group, vendeu cerca de US$ 620 mil em ações da PRCH. Traduzindo do dialeto para o português: o sujeito que senta nas reuniões onde se decide o futuro da companhia, que vê a planilha antes do analista do banco, que conhece o pipeline de contratos e os esqueletos do balanço, achou que era uma boa hora para transformar papel em dinheiro vivo. Coincidência? Reza a sabedoria do velho ofício comercial que coincidência repetida tem outro nome.
Olha, existe uma assimetria de informação que o mercado de capitais finge não enxergar. O acionista pulverizado recebe o release trimestral filtrado por três camadas de advogados, dois de relações públicas e uma de auditoria amigável. O executivo recebe a verdade no café da manhã. Quando os dois apostam em direções opostas, sobre a mesma empresa, no mesmo dia, é preciso ter uma fé religiosa nas instituições para acreditar que o pequeno está vendo melhor que o grande. Religião é coisa séria, mas não se pratica com o dinheiro da aposentadoria.
Há quem diga, e os comunicados oficiais quase sempre dizem, que vendas de insiders fazem parte de planejamento patrimonial, diversificação, exercício de opções programadas via 10b5-1. Tudo verdade, tudo possível, tudo conveniente. Mas me diz uma coisa: por que esse planejamento patrimonial sempre cai num momento em que a ação subiu e quase nunca naquele em que ela despencou? Diversificação é palavra elegante para descrever o instinto antiquíssimo de tirar a mão do fogo. O fogo, neste caso, é a própria empresa que o executivo administra e elogia em entrevistas.
Siga o dinheiro e você verá o desenho completo. A Porch Group opera num setor cíclico, ligado ao mercado imobiliário americano, intoxicado por uma década de juros artificialmente baixos e agora atravessando a ressaca monetária previsível. Quando o crédito é fabricado em laboratório por bancos centrais, todo mundo dança enquanto a música toca, e os primeiros a sair da pista são exatamente aqueles que conseguem ver o DJ. O resto do salão continua dançando até que as luzes acendam e revelem o que sempre esteve lá: um chão sujo de copos quebrados e promessas vencidas.
O detalhe sórdido, que ninguém comenta nas mesas de bolsa, é que esse teatro só é possível porque o regulador permite. Janelas de blackout existem, mas são frouxas. Programas 10b5-1 deveriam impedir o uso de informação privilegiada, mas foram desenhados por advogados que entendem que toda regra é também um cardápio de exceções. O resultado prático é que o executivo vende legalmente aquilo que o pequeno investidor estaria preso vendendo. A lei não é igual para todos; é igual para os que podem pagar advogados que a tornem desigual.
Fica a lição que nenhuma faculdade de finanças vai ensinar com essa franqueza: assista ao que o executivo faz, não ao que ele assina no relatório anual. O verbo trai, o gesto denuncia. Quando o capitão de um navio começa a transferir suas malas para outro porto, o passageiro de terceira classe que continua admirando o lustre do salão principal não é otimista, é distraído. E o distraído, neste mercado, é simplesmente o sujeito que paga a conta dos que prestaram atenção.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.