A cena é conhecida e merece ser olhada de frente. A Cooper Companies, fabricante de lentes de contato e produtos de saúde feminina, vê surgir no seu cadastro de acionistas um fundo ativista, e poucos dias depois a Wolfe Research aparece com um corte de recomendação convenientemente alinhado ao roteiro. Coincidência? Olha, em Wall Street coincidência é nome que se dá ao que ninguém quer explicar. O ativista pressiona, o analista carimba, o papel oscila, e no fim da feira alguém sai com o bolso cheio enquanto o operacional da empresa segue tendo que entregar lente de contato para míope na vida real.

O ponto que ninguém na CNBC quer discutir é o seguinte. Esse modelo de ativismo financeiro não tem absolutamente nada a ver com criar valor de longo prazo, com inovar produto, com servir cliente. É engenharia financeira disfarçada de governança. O sujeito compra três por cento da companhia, escreve uma carta indignada falando em shareholder value, exige recompra de ações, exige cisão de divisão, exige demissão de CEO, e some quando o preço sobe. Quem fica com a empresa esfacelada é o funcionário, o fornecedor, o cliente que dependia daquela linha de produto que o ativista achou pouco rentável no espreadsheet dele.

Há uma confusão deliberada entre mercado livre e capitalismo de compadrio financeiro, e essa confusão interessa a muita gente. Mercado livre é o sujeito que arrisca capital próprio, monta uma fábrica de lente de contato, atende uma necessidade real, e enriquece atendendo melhor que o concorrente. Esse é o mecanismo que produz prosperidade. O que se vê hoje é outra coisa. É um andar de cima que vive de comprar e vender empresa que outros construíram, alavancado em dinheiro barato fabricado por banco central, protegido por uma regulação que esmaga o concorrente pequeno e blinda o gigante já estabelecido. Isso não é capitalismo, é parasitismo institucionalizado.

Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. O fundo ativista cobra taxa de administração e taxa de performance dos seus cotistas, que muitas vezes são fundos de pensão de trabalhador americano. A casa de research que rebaixa o papel ganha banca de assessoria nas operações que vêm depois. O banco que estrutura a recompra de ações leva fee gordo. A diretoria pressionada negocia um pacote de saída de oito dígitos para o caso de cair fora. Todos os agentes envolvidos têm incentivo para mexer no carrossel, e ninguém tem incentivo para deixar a empresa em paz fazendo o que ela sabe fazer.

E aí entra a parte tragicômica. A imprensa econômica trata isso como notícia neutra, como se fosse o relatório do tempo. Pressão ativista aumenta. Wolfe corta recomendação. Como quem diz que choveu em Manhattan. Não choveu nada, meu caro. Houve uma operação coordenada, com atores identificáveis, com beneficiários identificáveis, e com perdedores que ninguém vai entrevistar porque eles não dão entrevista no horário nobre. O que se vê é o papel oscilando dois por cento; o que não se vê é o projeto de longo prazo da companhia sendo triturado para alimentar o trimestre de alguém.

O remédio para isso não é mais regulação, porque regulação foi exatamente o que criou o ambiente em que esse tipo de ativismo prospera. O remédio é juros reais voltarem a existir, é o capital voltar a custar caro, é o tempo voltar a ser variável relevante na conta. Enquanto dinheiro for de graça e o trimestre for a única unidade de medida, o ativista financeiro vai continuar batendo à porta de toda empresa que ousar planejar para a próxima década. A Cooper hoje, outra qualquer amanhã. O enredo é sempre o mesmo, só muda o ticker.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.