A Copa do Mundo de 2026, sediada simultaneamente em Estados Unidos, Canadá e México, será a maior da história, com quarenta e oito seleções, dezesseis cidades e estimativas de impacto econômico que dançam entre quarenta e cem bilhões de dólares dependendo da consultoria contratada e da dose de otimismo encomendada. A entidade que organiza o torneio, aquela que se apresenta como guardiã do esporte e mora em um edifício suíço com a discrição de um banco privado, projeta receitas recordes em direitos de transmissão, patrocínio e licenciamento. O detalhe que ninguém da imprensa esportiva quer sublinhar é que essa receita estratosférica é privada, enquanto a conta da infraestrutura, da segurança, das isenções fiscais e dos custos indiretos é pública. Festa de rico bancada com cartão corporativo do contribuinte.
Quem acompanhou a Copa de 2014 no Brasil sabe exatamente como termina o filme, porque o filme já passou e o ingresso ainda está sendo pago. Foram bilhões em estádios, alguns construídos em cidades onde o futebol local não preenche a arquibancada nem em final de campeonato municipal, e que hoje servem de garagem de ônibus, depósito ou simplesmente apodrecem ao sol. O legado prometido era turismo, emprego, modernização, e o legado real foi dívida pública, obras inacabadas e empreiteiras enriquecidas em contratos celebrados às pressas, sob regime de exceção, com dispensa de licitação justificada pelo argumento mágico de que a Copa estava chegando. O que se vê é o estádio reluzente na inauguração; o que não se vê é a escola que não foi construída, o hospital que não foi reformado, o imposto que continuou alto e o serviço público que continuou ruim.
O modelo é sempre o mesmo, com pequenas variações de figurino. Uma entidade privada, monopolista de fato sobre o produto que vende, exige condições que nenhuma empresa normal conseguiria arrancar de um governo sério. Pede isenção tributária total para si e para seus parceiros comerciais, cria zonas de exclusão comercial em torno dos estádios, blindando seus patrocinadores oficiais e expulsando o ambulante que vende cerveja gelada na esquina há vinte anos. Determina padrões de infraestrutura que o país anfitrião precisa atender em prazo apertado, o que justifica gastar mal e gastar muito, e ainda recebe os aplausos do noticiário esportivo, que vive de credenciamento e cobertura oficial. Quem ousa criticar é tratado como ranzinza, antipatriota, inimigo da alegria. A guilhotina da opinião pública corta primeiro quem aponta o óbvio.
A versão norte-americana de 2026 promete ser mais sofisticada na pilhagem porque os estádios já existem, herdados da NFL, do futebol universitário e do mercado privado de entretenimento que, este sim, foi construído com capital de risco e responde por seus próprios prejuízos. Mesmo assim, os custos públicos com segurança, transporte, fiscalização, infraestrutura digital e os famigerados pacotes de incentivo aos investidores estrangeiros já superam, em projeções iniciais, dez bilhões de dólares apenas do lado americano. O dinheiro entra pela porta da frente como receita privada de uma corporação suíça e sai pela porta dos fundos como custo público em três países. Siga a trilha do dinheiro e você encontra o de sempre, hospedado em hotel cinco estrelas, jantando com ministros, e aplaudindo da tribuna de honra enquanto a banda toca o hino.
O argumento de que o esporte movimenta a economia padece do mesmo vício de raciocínio do sujeito que quebra a vidraça da padaria e diz que está aquecendo o setor de vidraçaria. Sim, a vidraçaria recebe dinheiro, mas o padeiro, que ia comprar um terno novo, agora não compra, e o alfaiate, que ia comer um peixe no almoço, come arroz com ovo. A riqueza não foi criada, foi deslocada, e no caminho perdeu uma parte considerável para os intermediários, os burocratas e os amigos do rei. Megaeventos não geram crescimento; geram visibilidade para alguns e dívida para todos. A diferença é que a visibilidade dura noventa minutos e a dívida dura uma geração.
Quando chegar junho de 2026 e a torcida estiver gritando gol, lembre que cada bola na rede é também uma fatura silenciosa rolando no orçamento dos três países anfitriões, com juros, correção e um sorriso amarelo do contribuinte que não foi consultado. O esporte é livre, belo e legítimo quando é mercado de verdade, com capital privado, risco privado e lucro privado. O que está em jogo aqui é outra coisa: é o circo financiado pelo pão alheio, é a festa cobrada na conta da água, é o velho truque de privatizar o lucro e socializar o prejuízo, agora com uniforme novo e patrocínio global. Bola rolando na televisão, pilhagem rolando no caixa público.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.