O conselho da Copel aprovou a renovação do programa de recompra de ações ordinárias e preferenciais, e o mercado bateu palmas como quem aplaude mágico em festa infantil. Vamos traduzir o truque para quem não fala a língua dos comunicados ao mercado. Recompra de ação é, no fundo, a empresa usando o próprio caixa para comprar papel dela mesma, reduzindo o número de ações em circulação e, por aritmética básica, inflando artificialmente indicadores como lucro por ação e valor unitário do papel. Não cria riqueza nova. Não constrói usina. Não atende um cliente sequer. Apenas redistribui o que já existe, com perfume de boa governança.
Olha, quando uma empresa privada faz isso, é problema dos acionistas dela, e ponto final. Quando uma estatal de capital aberto faz isso, é problema de todo mundo que paga conta de luz no Paraná, porque o caixa que está sendo torrado para sustentar cotação de papel veio, em última instância, de tarifa de energia elétrica, de monopólio geográfico garantido por lei e de subsídio cruzado camuflado em estrutura tarifária. Quer dizer, a estatal não gera valor competindo, gera valor confiscando, e depois usa o confisco para comprar ela mesma. É o ouroboros do capitalismo de compadrio, a serpente engolindo o próprio rabo e cobrando ingresso para o espetáculo.
Me diz uma coisa, se a Copel tem caixa sobrando a ponto de justificar bilhões em recompra, por que não devolve essa gordura ao consumidor cativo na forma de tarifa menor? Por que não amortiza dívida pesada, que ainda existe e custa caro? Por que não investe em modernização de rede, que continua precária no interior, ou em redundância de transmissão, que falha toda vez que cai um galho de eucalipto? A resposta é óbvia para quem segue o dinheiro até a última gaveta. Recompra agrada gestor com bônus atrelado a indicador de mercado, agrada fundo institucional que quer saída elegante, agrada analista que precisa justificar recomendação de compra. Consumidor de energia não está na sala onde a decisão acontece, e quem não senta à mesa é o prato.
Há algo ainda mais sintomático nesse arranjo. A estatal que recompra ações é a mesma que, em ciclos anteriores, recebeu aporte do tesouro estadual, capitalização via emissão subscrita pelo governo, garantia implícita de socorro em qualquer crise. Ou seja, o contribuinte paranaense banca o downside e o acionista privado embolsa o upside, num esquema que nem o cassino mais desonesto teria coragem de oferecer ao freguês. Privatizar lucro e estatizar prejuízo é vício antigo do nosso modelo de estatal listada em bolsa, essa quimera societária que mistura o pior dos dois mundos, a ineficiência do monopólio público com a esperteza do capital concentrado.
E há o componente narrativo, que vale destacar. Toda recompra é vendida como sinal de confiança da administração, como se o gestor estivesse dizendo ao mercado que o papel está barato e por isso a empresa está comprando. Bonito no slide do investor day, frágil no exame de qualquer balanço sério. Se a ação está barata, talvez seja porque os fundamentos estão deteriorando, porque a regulação está apertando, porque o ambiente de negócio piorou. Comprar o próprio papel nesse cenário é como o capitão furar o casco para drenar a água, achando que assim o navio fica mais leve. A coisa óbvia que ninguém quer enxergar é que recompra em estatal regulada é admissão silenciosa de que a empresa não tem onde aplicar capital com retorno superior a manipular a própria cotação. Isto, em qualquer manual honesto de finanças, chama-se estagnação.
O programa renovado vai render manchete elogiosa, recomendação de banco, satisfação de acionista controlador e bônus generoso na próxima assembleia. Vai render também um pouco mais de desconfiança, para quem ainda tem paciência de ler entre as linhas do comunicado, sobre a real natureza do capitalismo brasileiro de compadrio, em que estatal listada em bolsa virou veículo de transferência de renda do consumidor cativo para o investidor institucional, com a benção solene da CVM, do Tesouro estadual e do silêncio educado da imprensa econômica. Mágico bom é aquele que faz o público aplaudir enquanto tira a carteira do bolso dele.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.