Repare na cena com atenção, porque ela resume o Brasil de 2026 num parágrafo. De um lado, uma estatal que acumula prejuízos bilionários, vive de aportes do Tesouro, tem servidor estável, salário acima da média do setor privado e produtividade que faria qualquer transportadora particular pedir concordata na semana seguinte. Do outro, uma plataforma chinesa que vende de bugiganga a eletrônico falsificado, opera com margens apertadíssimas, terceiriza tudo que pode e precisa desesperadamente de uma malha logística que entregue o pacote antes que o cliente esqueça por que comprou. O casamento estava escrito nas estrelas. Falta só o contribuinte saber que vai pagar a festa.
Quando uma empresa pública anuncia "parceria estratégica" com gigante estrangeiro, vale a pena fazer a pergunta mais antiga da economia, aquela que ninguém quer responder em entrevista coletiva. Quem coloca o quê? Quem fica com o quê? Se a estatal aporta a infraestrutura, os galpões, os centros de distribuição, a frota e a mão de obra concursada, e a contraparte aporta volume de pacotes e tecnologia de rastreamento, fica claro qual lado está bancando o capital fixo e qual está colhendo o lucro variável. O risco é nacionalizado, o ganho é exportado para Hangzhou. Já vimos esse filme tantas vezes que sabemos até a trilha sonora.
Existe também o detalhe que ninguém comenta em horário nobre. O pequeno lojista brasileiro, aquele que abre a porta às sete da manhã, paga ICMS, ISS, PIS, Cofins, contribuição previdenciária patronal, Simples Nacional quando consegue, aluguel, luz com bandeira tarifária e funcionário com encargo de oitenta por cento sobre o salário, agora vai competir com a plataforma chinesa que entra no país por regime de remessa, paga uma fração do tributo, usa a malha logística estatal subsidiada e ainda recebe o carimbo oficial da empresa pública como selo de confiabilidade. É o Estado escolhendo vencedor no mercado, e o vencedor, por uma coincidência impressionante, nunca é o vizinho.
O argumento oficial virá empacotado com o vocabulário de sempre. Modernização, eficiência, geração de empregos, integração ao comércio global, fortalecimento da estatal. Olha, quando a estatal precisa de uma plataforma estrangeira para se "fortalecer", a conversa já está perdida. Empresa saudável não precisa de muleta. Quem precisa de parceria salvadora é quem está afundando, e quem oferece parceria a quem está afundando geralmente quer comprar barato o que vale caro. A história da economia mundial está cheia de "parcerias estratégicas" que terminaram com um lado dono dos ativos e o outro dono das dívidas.
Há ainda a questão geopolítica que a nota oficial nem tangencia. Entregar a espinha dorsal logística de um país a uma plataforma controlada, no fim da cadeia, por um regime que não esconde suas ambições estratégicas, não é decisão comercial neutra. É escolha de campo. Cada centro de distribuição integrado, cada sistema de rastreamento compartilhado, cada algoritmo de roteirização entregue significa dependência adicional de quem está do outro lado do Pacífico. E dependência, todo mundo que já viveu sob ela sabe, cobra juros impagáveis quando o credor resolve apertar.
O brasileiro vai aplaudir porque o pacote chegou em cinco dias em vez de quinze, sem perceber que está financiando, com o imposto que paga todo mês, a destruição do comerciante da esquina, a captura da infraestrutura pública por interesse estrangeiro e a perpetuação de uma estatal que deveria ter sido vendida há trinta anos. No fim, é sempre o mesmo arranjo. Privatizam os lucros, socializam os prejuízos, e chamam isso de parceria.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.