O dado saiu, e o roteiro do Partido Comunista Chinês precisou de um remendo às pressas. O CPI de agosto veio acima do esperado, o índice de preços ao produtor voltou a subir de ritmo, e a narrativa de que Pequim domesticou a inflação com sabedoria confuciana e planilhas de cinco anos começou a rachar por onde sempre racha: na fila do supermercado e no custo do insumo industrial. A economia que se apresenta como modelo alternativo ao Ocidente decadente descobriu, tarde e mal, que a lei da oferta e da procura não pede autorização ao Politburo antes de agir.

Convém entender o que está por trás desse número aparentemente técnico. Durante dois anos, os manuais ocidentais celebraram a China como o exemplo raro de país em deflação, como se fosse virtude aquilo que era sintoma de demanda interna anêmica, bolha imobiliária estourando em câmera lenta e consumidor apavorado guardando yuan debaixo do colchão. Agora que o índice sobe, a mesma imprensa vai dizer que é sinal de recuperação. Não é. É o efeito colateral de uma bazuca monetária e fiscal disparada por Xi Jinping para tentar tapar os buracos que o próprio dirigismo cavou, dos subsídios industriais que inundaram o planeta de painéis solares abaixo do custo até os empréstimos fantasmas dos governos provinciais.

Siga o dinheiro e a coisa fica clara. Cada yuan a mais que o banco central chinês empurra para dentro do sistema para socorrer construtora zumbi, para bancar veículo elétrico que ninguém compra no preço real e para financiar a nova rodada de infraestrutura faraônica, esse yuan reaparece dias depois na etiqueta do arroz, no preço do porco, no custo do aço que a siderúrgica precisa comprar. Não existe estímulo grátis. Existe apenas a escolha entre pagar agora, via imposto explícito, ou pagar depois, via imposto disfarçado de aumento de preços, que é como se chama a inflação quando se tira a maquiagem acadêmica.

O detalhe que os economistas de terno cinza fingem não ver é o seguinte: um regime que controla juros, controla câmbio, controla o que sua estatal pode comprar, controla até quantos filhos você deve ter, mas não controla o resultado de tudo isso quando aparece agregado na cesta de consumo. O planejador central, por mais computador quântico que tenha, jamais terá o conhecimento disperso entre um bilhão e trezentos milhões de pessoas comprando, vendendo, poupando e trocando ao mesmo tempo. Toda vez que a burocracia tenta substituir esse enxame de decisões pelo palpite iluminado do comitê, o resultado é o mesmo desde os faraós: escassez onde deveria haver abundância e inflação onde prometeram estabilidade.

Para o Brasil, o recado é duplo e igualmente incômodo. Primeiro, quem apostou que a desaceleração chinesa manteria commodity barata e importação chinesa quase de graça vai precisar refazer as contas, porque o PPI subindo em Xangai chega, com atraso de meses, na indústria de Manaus e no bolso de quem compra celular em Uberlândia. Segundo, e mais importante, o experimento chinês deveria enterrar de vez a fantasia nacional de que basta um estado forte, um BNDES generoso e um punhado de doutores em Brasília para orquestrar o crescimento. A China acabou de mostrar, com o próprio índice oficial, que nem ela consegue.

A moral da história é velha e sempre nova. Você pode fechar jornal, prender dissidente, censurar rede social e reescrever livro de história, mas não consegue calar a etiqueta de preço. Ela é o único dissidente que nenhum regime até hoje conseguiu prender.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.