O documento diz literalmente "criar uma crise". Não metaforicamente, não em sentido figurado: o manual produzido pela Associação Americana de Professores Universitários, em parceria com a ala universitária dos Jovens Socialistas Democratas e o Movimento Sunrise, instrui estudantes a montar campanhas de pressão para forçar centenas de faculdades a romper contratos com empresas que prestam qualquer serviço ao ICE, a agência federal de controle de imigração. A linguagem é de manual de guerrilha política; o patrocinador é uma das mais antigas e respeitadas associações acadêmicas dos Estados Unidos. Pense no que isso significa.

A universidade ocidental nasceu como espaço de disputa intelectual livre, onde a verdade se buscava pela razão e pelo argumento. Séculos de pressão política, inquisições de todo tipo, governos autoritários de toda cor tentaram domesticar essa instituição, e a resistência histórica desses ambientes à instrumentalização é exatamente o que os tornava valiosos. O que o manual da AAUP representa não é desobediência intelectual corajosa; é a rendição final. A própria instituição que deveria ser refúgio contra a politização da vida intelectual tornou-se o instrumento mais eficiente dessa politização. A raposa não entrou de fora; nasceu dentro do galinheiro e foi crescendo enquanto o fazendeiro aplaudia.

Siga a trilha ideológica junto com o dinheiro, porque as duas convergem no mesmo ponto. O manual não esconde seus objetivos: o texto afirma explicitamente que a campanha quer "construir um movimento anti-ICE com profundidade suficiente para não apenas parar o ICE, mas também derrotar o roubo das eleições de 2026 e 2028". Ou seja, não é proteção humanitária aos imigrantes; é operação eleitoral com roupagem acadêmica. As universidades, custeadas em parte substancial por dinheiro federal, por isenções fiscais estaduais e por doações dedutíveis de impostos, tornam-se base operacional de um movimento que confessa, em seu próprio material distribuído, objetivos político-eleitorais explícitos. Qualquer pessoa honesta chama isso pelo nome correto: uso de infraestrutura pública para fins de partido privado.

Existe um tipo peculiar de ingenuidade, às vezes de desonestidade, que consiste em demolir estruturas sem ter a menor ideia de por que elas foram construídas. O ICE não surgiu do nada: é a resposta institucional de uma sociedade que decidiu, por mecanismos democráticos, ter fronteiras definidas, leis de imigração aplicáveis e agências responsáveis pela aplicação. Pode-se discutir a proporcionalidade dos métodos, os excessos documentados, a legislação subjacente; esse é o debate legítimo e necessário. O que o manual da AAUP propõe é outra coisa: não argumentar contra a política pela razão e pelo voto, mas sabotar a infraestrutura logística da agência, pressionando empresas privadas a romper contratos e criando deliberadamente o caos operacional como fim em si mesmo. É a diferença entre convencer e destruir, e apenas um desses métodos respeita o adversário como ser racional.

Há uma ironia que deveria ser insuportável, mas que passa por cima da maioria dos comentaristas. A mesma academia que passou décadas construindo o vocabulário dos "espaços seguros", da proteção ao estudante vulnerável, do ambiente de aprendizado livre de pressão externa, produz agora manuais que instruem explicitamente à criação de crises institucionais dentro das próprias universidades. O mesmo corpo docente que trata linguagem considerada inadequada como violência distribuída orienta como montar operações de desgaste contra administrações universitárias que não cumpram as demandas políticas do movimento. Quando os princípios mudam conforme a conveniência, eles nunca foram princípios; eram táticas com nome emprestado.

O que está realmente em jogo não é imigração, não é o ICE e nem mesmo a política do governo Trump. É a resposta à pergunta mais básica sobre o papel da universidade numa sociedade livre: a instituição existe para produzir pessoas capazes de pensar com autonomia, ou para formar agentes disciplinados de uma causa política específica? Quando a resposta praticada é a segunda, a universidade deixou de ser universidade. Virou partido. E partidos, ao contrário de universidades, não merecem a proteção constitucional da liberdade acadêmica, nem o dinheiro do contribuinte que jamais os elegeu para nada.

Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.