Releia o texto da Declaração de Independência com calma, sem os óculos turvos do nacionalismo do século XX, e você vai topar com um detalhe que os professores de história das universidades americanas fingem não ver. O documento não fala em "a nação americana". Fala em "Estados Livres e Independentes", no plural, cada um com poder pleno para fazer guerra, assinar tratados, comerciar e tudo mais que uma soberania de verdade faz. Não era retórica acidental. Era a tese central. Treze comunidades políticas distintas, com histórias, costumes, religiões e economias próprias, se desligando do Império Britânico cada uma por si, unidas apenas pela necessidade comum de não acabar enforcadas por traição.
O hábito de projetar a "nação americana" sobre 1776 é o que se chama em bom português de anacronismo, e anacronismo nunca é inocente. Ele serve para alguma coisa. Serve, neste caso, para legitimar o monstro federal que cresceu depois, especialmente depois da Guerra Civil, e que hoje gasta trilhões, regula desde a vazão do chuveiro até o currículo das escolas, e ainda exige reverência de cidadão grato. Se a nação já existia em 1776, então o governo central de Washington é a continuação natural da vontade dos fundadores. Se, ao contrário, existiam treze repúblicas soberanas que se associaram voluntariamente para fins limitadíssimos, então tudo que veio depois é usurpação travestida de história oficial.
Os Artigos da Confederação, que vieram logo a seguir, deixavam isto cristalino. Cada Estado retinha sua soberania, sua liberdade e sua independência, e todo poder que não fosse expressamente delegado ao governo confederado permanecia com o Estado. A própria Constituição de 1787, que substituiu os Artigos sob argumento de "aperfeiçoar a união", precisou ser ratificada Estado por Estado, porque ninguém na época sonhava em supor que existisse um povo americano unitário capaz de decidir pelo todo. Quem ratificou foram as convenções estaduais, uma a uma, e várias só toparam porque vieram acompanhadas as dez primeiras emendas amarrando o governo central a um colete de força.
Siga o dinheiro e o poder e a peça se monta sozinha. Cada vez que historiadores oficiais, intelectuais subsidiados e burocratas federais repetem que "os pais fundadores criaram uma nação", o que estão fazendo na prática é vender a ideia de que o governo de Washington tem mandato originário para mandar em tudo. Isto não é história, é propaganda retroativa. Os mesmos que aplaudem esta narrativa são os que defendem o IRS, o Federal Reserve, o Departamento de Educação, a EPA e mais um cardápio infindável de agências que os fundadores teriam considerado tirania pura. A nação imaginária do mito serve de cobertura moral para a centralização real do orçamento.
O Brasil, claro, tem sua própria versão tropical do mesmo embuste. Aqui se ensina que Dom Pedro gritou às margens do Ipiranga e magicamente brotou o Estado nacional unificado, dotado de poder absoluto sobre tudo que se mexe entre o Oiapoque e o Chuí. Convenientemente se esquece que províncias inteiras se rebelaram contra essa centralização forçada durante todo o século XIX, e que o modelo federativo só não virou pó porque o Império e depois a República mantiveram o aparato militar necessário para esmagar qualquer veleidade autonomista. O resultado está aí, um país que cobra carga tributária europeia para entregar serviço público africano, porque a centralização do poder sempre cobra caro e entrega pouco.
A lição que escapa aos comentaristas de plantão é simples e desconfortável. Quem inventa uma "nação" onde havia uma confederação de comunidades livres está, na prática, justificando o confisco da liberdade dessas comunidades em nome de uma abstração que nunca existiu. Toda vez que você ouvir alguém invocar o "destino comum da nação" para defender mais imposto, mais regulação ou mais centralização, lembre que essa nação mítica foi inventada depois, justamente para que ninguém pudesse mais dizer não.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.