Uma cerimônia foi montada no último domingo em São Paulo. Vice-presidente, ministro da Fazenda e presidente do Banco do Brasil de um lado. Governador de São Paulo conspicuamente ausente do outro. No meio: R$ 2,57 bilhões em crédito para financiar a contrapartida estadual de uma PPP que vai custar, no total, perto de R$ 7 bilhões. O primeiro túnel submerso da América Latina, ligando Santos a Guarujá sob o canal do porto, virou palco de uma disputa que nada tem de técnica e tudo tem de eleitoral. Enquanto Alckmin e o ministro Dario Durigan destacavam com entusiasmo o protagonismo do governo Lula, Tarcísio de Freitas, potencial candidato à presidência pela direita, não apareceu. Havia sido avisado três dias antes da cerimônia, um convite com a urgência de quem quer a testemunha, não o coautor.

Convém parar um momento e olhar para o que está sendo disputado, de fato. O Banco do Brasil, banco público, emprestou R$ 2,57 bilhões ao governo de São Paulo com garantia da União, ou seja, com o patrimônio do contribuinte brasileiro. Não existe aqui nenhuma generosidade, nenhum presente, nenhuma benesse: existe crédito a ser pago com juros, carregado nas costas de quem paga imposto. A obra é uma PPP, a concessionária é a Mota-Engil, grupo português que venceu o leilão em setembro de 2025. O risco de inadimplência é socializado, o lucro futuro da operação é privatizado, e os dois governos brigam sobre quem merece a foto. É a estrutura perfeita do capitalismo de compadrio: o Estado entra com a garantia, a empresa entra com a execução, e o político entra com a faixa na lapela.

O que não aparece na cerimônia, porque nunca aparece, é a conta. Não a conta do crédito em si, que ao menos tem um devedor identificado, mas o custo disperso, invisível e silencioso que toda grande obra pública carrega: os projetos menores que não foram financiados, as empresas que não tomaram crédito porque o banco público estava ocupado com o projeto grandioso do palanque, o contribuinte que vai garantir a dívida e jamais saberá que a garantiu. A plateia aplaude o túnel visível. Ninguém chora pela riqueza que deixou de ser criada em outro lugar.

A ausência de Tarcísio, é preciso dizer, não é inocência política. É cálculo. O governador de São Paulo tem interesse óbvio em que a obra exista e em que o crédito saia, mas nenhum interesse em aparecer ao lado de Alckmin numa foto que vai circular como propaganda do PT às vésperas de uma eleição onde ele próprio será adversário. Convidá-lo com três dias de antecedência foi, por parte do Planalto, um movimento igualmente calculado: ou ele vem e engole a narrativa federal, ou ele falta e parece ingrato. A armadilha está bem montada, e Tarcísio escolheu a única saída disponível, que é também a mais honesta: simplesmente não ir. No jogo de palavras que é a política brasileira, a ausência às vezes fala mais alto que o discurso.

Há algo de antigo nessa disputa. Imperadores romanos gravavam o próprio nome nos aquedutos que mandavam construir. Reis medievais batizavam catedrais com seus títulos. Ditadores do século XX cobriam as estradas com o próprio rosto. A novidade no Brasil de 2026 é apenas a velocidade: a obra mal começou, o crédito acabou de ser assinado, e a briga pela paternidade já está em pleno vapor. O que mudou não foi o instinto do poder, que é sempre o mesmo. O que mudou é a imprensa ao vivo, o clipe de campanha que se fabrica em tempo real, a necessidade de parecer o pai da criança antes de a criança nascer.

No fim das contas, o túnel vai ser construído, o Porto de Santos vai ser mais fluido, a Baixada Santista vai respirar um pouco melhor. Essas são boas notícias, e seria desonestidade negá-las. Mas o contribuinte que paga o imposto que garante o crédito que financia a obra que os dois lados disputam como herança não vai aparecer na foto. Nunca aparece. A ele sobra o que sempre sobra: a conta.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.