Pois então chegaram à conclusão, depois de décadas vendo empresa após empresa implodir, que crescer sem estrutura é problema. Que revelação. Na próxima edição, talvez descubram que água molha e fogo queima. O fato é que o debate sobre longevidade empresarial no Brasil padece de uma doença crônica, a incapacidade de enxergar que a maior parte das estruturas frágeis que hoje tentam se consolidar foram erguidas em cima de crédito artificial, incentivo fiscal disfarçado e uma tolerância regulatória seletiva que beneficia quem tem acesso ao balcão do BNDES e esmaga quem empreende com capital próprio.
Olha, ninguém constrói longevidade empresarial em ambiente onde o juro real é fabricado em gabinete, onde a regra tributária muda três vezes por ano e onde o governo decide, do alto do seu conhecimento enciclopédico sobre tudo, quais setores merecem sobreviver e quais devem ser eutanasiados via carga fiscal. A empresa que cresce com estrutura sólida no Brasil é a que, apesar do Estado, conseguiu margem suficiente para não depender dele. Todas as outras são zumbis corporativos aguardando o próximo ciclo de expansão monetária para respirar por mais dezoito meses.
Me diz uma coisa, quem lucra quando se prega crescimento estruturado mas se mantém um ambiente que pune precisamente a estruturação? Siga o dinheiro e você encontrará consultorias gigantescas vendendo metodologias de governança, bancos ofertando linhas de capital de giro com spread obsceno, e um exército de reguladores criando complexidade para depois vender, oficialmente ou por portas laterais, o serviço de interpretá-la. A longevidade virou commodity de palestra, e a conta do churrasco vai para o empresário pequeno que não tem CFO, não tem compliance e não tem lobista em Brasília.
A história está cheia de impérios comerciais que ruíram não por falta de demanda, mas por terem confundido expansão com solidez. Dos grandes trustes americanos do final do século dezenove às construtoras brasileiras dos anos 2010, a lição é sempre a mesma, quem cresce na boleia de dinheiro barato e contrato público desaba quando o vento muda. E o vento sempre muda. A diferença entre uma empresa centenária e um foguete que explode em vinte anos raramente está na estratégia de marketing, está na capacidade de gerar caixa real em mercado real, sem muleta estatal e sem ilusão contábil.
Quer dizer, o discurso da estrutura é bonito, mas falta a parte incômoda, reconhecer que a maior ameaça à longevidade empresarial brasileira não é a falta de planejamento interno, é o excesso de planejamento externo. É o Estado que decide onde você investe via incentivo, quando você demite via CLT, quanto você paga via tributo, como você contrata via licitação e se você pode existir via licença. Empresa não morre só de mau gestor; morre de ambiente onde o mau gestor público tem mais poder sobre o balanço dela do que o próprio acionista.
Longevidade, no fundo, não é tema de consultoria, é tema de liberdade. Onde há propriedade respeitada, contrato cumprido, moeda estável e regra previsível, empresa envelhece com dignidade. Onde tudo isso é negociável em função da eleição seguinte, o que se chama de estrutura é só uma palavra decorativa para disfarçar a dependência. Estrutura de verdade é o luxo de quem não precisa do governo; o resto é decoração antes do naufrágio.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.