A Danone abriu o ano anunciando que o crescimento de vendas no primeiro trimestre perdeu tração, e os motivos vieram sem maquiagem: o conflito no Oriente Médio continua derrubando o consumo em mercados inteiros, e o recall de fórmula infantil tirou pedaço relevante do resultado. Traduzindo para quem vive no mundo real, longe das planilhas de Paris: a empresa que vende leite fermentado em cento e poucos países descobriu, de novo, que não controla nem a guerra dos outros nem a própria cadeia de qualidade. E quando você não controla nada disso, o trimestre vira o que virou, uma desaceleração que ninguém pediu.

Vale olhar o Oriente Médio com lupa, porque aqui mora uma lição que os MBAs insistem em ignorar. Marcas ocidentais globalizadas viraram alvo preferencial em ondas de boicote organizado, e não adianta o departamento de marketing jurar neutralidade num comunicado bilíngue. O consumidor do Cairo, de Amã, de Jacarta decidiu, e decidiu sem pedir licença ao ESG report. Quer dizer, o mesmo globalismo que vendia como virtude a presença em cada esquina do planeta agora cobra o pedágio, porque estar em todo lugar significa ser atingido em todo lugar. Ação humana individual, milhões dela, empilhada em forma de queda de receita.

Olha, o recall de fórmula infantil é capítulo separado e bem mais incômodo. Estamos falando de produto que alimenta recém-nascido, categoria em que a margem de erro é zero e a confiança, uma vez quebrada, leva anos para voltar. E aqui entra o ponto que ninguém quer discutir na coluna de negócios convencional: a fórmula infantil é um dos setores mais regulados do planeta, auditado por agência governamental em cada continente, com protocolos, certificados, selos e carimbos. Se a regulação pesada fosse garantia de qualidade, o recall não existiria. Mas existe, periodicamente, com marcas diferentes, em países diferentes, porque o burocrata em Bruxelas ou em Brasília não está na linha de produção e nunca vai estar. Quem protege o bebê é a reputação da marca no mercado livre, não o selo da agência.

Me diz uma coisa: quem paga essa conta? O acionista vê a ação cair, o executivo perde bônus, e o consumidor paga mais caro no próximo ciclo para a empresa recompor margem. A parte invisível, aquela que nunca aparece no release trimestral, é o pequeno concorrente local que poderia ter ocupado espaço se a regulação de entrada não fosse um muro de trinta metros erguido justamente a pedido das gigantes. Captura regulatória não é teoria, é o motivo pelo qual o mercado de fórmula infantil no mundo inteiro é dominado por meia dúzia de nomes. Quando um deles tropeça, não há substituto ágil na prateleira, há prateleira vazia e mãe desesperada ligando para o pediatra.

E tem o pano de fundo monetário que ninguém da Danone vai comentar no call com analistas, mas que explica metade da história. Consumidor europeu, árabe, asiático, americano, todos eles foram empobrecidos em termos reais pela enxurrada monetária da última década e pela inflação que veio de brinde. Iogurte premium, suplemento infantil de marca cara, água mineral francesa com nome impronunciável, tudo isso é a primeira coisa que sai do carrinho quando o salário não estica. A multinacional culpa a guerra, culpa o recall, culpa o câmbio, e está certa em parte, mas esquece de mencionar que o banco central que imprimiu dinheiro sem parar também está na lista de responsáveis pela queda de volume. Só que acusar banco central dá processo, acusar guerra dá manchete bonita.

A moral do trimestre é velha e os executivos insistem em não aprender. Império corporativo construído sobre a premissa de que o mundo inteiro é um único mercado dócil, previsível e em paz permanente é um império de areia. Geopolítica volta, erro de fábrica acontece, consumidor empobrecido escolhe a marca branca, e o crescimento vira desaceleração num slide de PowerPoint. O que não se vê no release é o que mais importa: a fragilidade estrutural de um modelo que terceirizou tudo, globalizou tudo, regulou tudo e, no fim, não controla coisa nenhuma. Quem vive de vender conforto ao mundo inteiro precisa rezar para o mundo inteiro continuar confortável, e o mundo, teimoso como sempre, não coopera.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.