O setor de serviços de TI entra em 2026 repetindo o mantra do "crescimento moderado com disrupção crescente da IA", e basta traduzir do corporativês para o português para entender o tamanho do estrago. "Crescimento moderado" é o modo elegante de dizer que a festa acabou. "Disrupção crescente" é o modo elegante de dizer que o modelo de negócio da consultoria tradicional, aquele que vendia hora de programador indiano terceirizado por múltiplos absurdos, está sendo dissolvido pela mesma tecnologia que essas empresas passaram cinco anos empurrando goela abaixo dos clientes como panaceia universal.
Olha, a ironia aqui é quase bíblica. Durante meia década, as grandes integradoras convenceram conselhos de administração do mundo inteiro a despejar bilhões em "transformação digital com IA generativa", vendendo a ideia de que sem isso a empresa morreria na próxima quarta-feira. Agora que a tecnologia amadureceu o suficiente para fazer em dez minutos o que antes exigia um time de vinte consultores faturando por hora, os mesmos executivos que venderam o remédio descobrem que o paciente principal era o próprio corpo. Quem vendeu automação agora precisa explicar ao acionista por que sua própria operação, intensiva em mão de obra, não se automatizou primeiro.
Siga o dinheiro e a história fica mais divertida. O modelo clássico dessas consultorias é arbitragem de trabalho: contrata-se mão de obra barata em um canto do planeta, cobra-se caro em outro, e a diferença vira margem. Esse arranjo depende de uma premissa silenciosa, a de que o trabalho cognitivo repetitivo é escasso e precifica alto. A IA generativa destruiu essa premissa em dezoito meses. O resultado é que o ativo principal dessas empresas, o exército de desenvolvedores júnior e pleno, virou passivo. E não existe rescisão em massa que apareça bonita no balanço do próximo trimestre.
Enquanto isso, o discurso oficial insiste em tratar o fenômeno como se fosse um ciclo macroeconômico qualquer, culpa do juro alto, da inflação, da guerra, do clima, de qualquer coisa que exima os gestores da responsabilidade de não terem enxergado o óbvio. Me diz uma coisa, em que outro setor os protagonistas levaram tanto tempo para perceber que estavam cavando a própria cova com a ferramenta que vendiam? É como carpinteiro reclamando da serra elétrica depois de passar dez anos fabricando serras elétricas em escala industrial e entregando manuais de uso.
O que se vê é a manchete do "setor incerto". O que não se vê é o realinhamento brutal de quem ficou rico vendendo complexidade artificial. Décadas de projetos ERP intermináveis, de SAP que nunca termina de ser implantado, de "centros de excelência" que excelavam em emitir nota fiscal, tudo isso sustentado por uma opacidade técnica que a IA está dissolvendo como sal em água quente. O cliente médio, que antes precisava de um batalhão para traduzir requisito em código, agora descobre que consegue entregar com um time enxuto armado de boas ferramentas. A mágica acabou, e quando a mágica acaba, o mágico sobra.
A lição prática para quem observa de fora é simples e cruel. Quando um setor inteiro passa a chamar encolhimento de "crescimento moderado", recessão estrutural de "ciclo de ajuste" e obsolescência de "janela de oportunidade", não é otimismo, é terapia coletiva paga pelo acionista. O mercado, esse juiz que não aceita relatório bonito, vai precificar a verdade no tempo dele, como sempre precificou. E o tempo dele costuma ser bem menos paciente que o tempo dos comunicados oficiais.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.