A manchete chega embrulhada em papel celofane, daquelas que o investidor médio engole sem mastigar. Crescimento na nuvem acelera, demanda por software de IA dispara, gráficos para cima, múltiplos esticados, CEOs sorrindo em conference call. Tudo lindo, tudo organizado, tudo conveniente. O que ninguém pergunta, porque perguntar é falta de educação no salão dos analistas, é uma coisa simples: esse dinheiro todo que está irrigando data center, GPU, contrato plurianual e startup de IA generativa, ele saiu de onde? Brotou no jardim da Microsoft? Foi achado embaixo do tapete da Amazon? Ou é, como sempre foi, o eco distante de uma década de juros artificialmente espremidos contra o chão pelos bancos centrais que decidiram, na cabeça deles, que sabiam melhor que milhões de poupadores qual deveria ser o preço do tempo?

Quando o custo do capital é mantido próximo de zero por tempo suficiente, qualquer projeto começa a parecer rentável no Excel. É assim que se constrói ferrovia que ninguém usa no século dezenove, é assim que se constrói prédio vazio em Xangai no século vinte e um, e é assim que se constrói capacidade de nuvem suficiente para hospedar três civilizações alienígenas além da nossa. A demanda por software de IA existe, claro que existe, ninguém é tolo de negar que tem caso de uso real. Mas existe na proporção que está sendo precificada? Existe o suficiente para justificar centenas de bilhões de dólares em capex anual de meia dúzia de empresas que de repente descobriram, todas ao mesmo tempo, que precisam construir o equivalente energético de um pequeno país?

Siga o dinheiro e a paisagem fica menos glamourosa. Boa parte da receita extraordinária de uma hyperscaler é contrato com outra hyperscaler, é startup queimando rodada de venture capital comprando crédito de nuvem, é empresa cliente que pegou financiamento subsidiado para se digitalizar porque algum programa governamental decidiu que digitalização é virtude moral. É um circuito fechado de capital barato girando em torno de si mesmo, gerando faturamento contábil que se traveste de produtividade. A economia real, aquela do sujeito que produz parafuso, leite, software de gestão para padaria, sente outra coisa completamente diferente, sente o aperto de margem, sente o custo de energia subindo justamente porque os data centers estão sugando a rede.

Há ainda o pequeno detalhe ético, que o discurso oficial trata como nota de rodapé. Quem decidiu que a próxima onda de progresso humano deveria ser financiada por expansão monetária, transferência de renda do poupador para o tomador, e concentração brutal de poder computacional em meia dúzia de empresas que mantêm relação cada vez mais íntima com governos? Ninguém votou nisso. Não houve assembleia, não houve referendo, não houve sequer debate honesto. Houve decisão de comitê em Washington, em Frankfurt, em Tóquio, e o resto do mundo foi obrigado a dançar conforme a música. Chamar isso de mercado livre é insulto à inteligência de quem leu um livro de economia na vida.

O bust virá, porque sempre vem. Não é pessimismo, é aritmética. Quando o crédito artificial encontra a realidade dos custos verdadeiros, quando a taxa de retorno exigida volta a ser fixada por gente real arriscando dinheiro real em vez de balcão estatal manipulando agregados, descobre-se quanta capacidade foi construída para uma demanda que não existia, quantos contratos foram assinados sob premissa que não se sustenta, quantas startups de IA estavam vivas apenas porque o dinheiro era grátis. Os sobreviventes serão sólidos, terão entregue valor real, merecerão suas posições. Os outros virarão estudo de caso, virarão piada em podcast, virarão capítulo de livro sobre a próxima bolha que ninguém viu chegar embora estivesse escrita em letras garrafais no céu.

Enquanto isso, o investidor de varejo é convidado a entrar na festa pela porta dos fundos, comprando no topo aquilo que os insiders já estão silenciosamente distribuindo. É o ritual de sempre, com roupa nova. A inteligência artificial é real, a revolução produtiva que ela pode trazer é real, mas o preço atual desse sonho foi inflado por uma máquina de imprimir dinheiro que não pediu licença a ninguém. Quando a poeira baixar, vão chamar de imprevisível o que era inevitável, vão chamar de cisne negro o elefante que estava sentado na sala o tempo todo, e vão pedir, novamente, mais intervenção do banco central para resolver o problema que o banco central criou. A roda gira, os tolos pagam, os espertos vendem, e a próxima geração descobre na pele que não existe almoço grátis, nem na nuvem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.