Saiu o relatório da ADP referente a maio e o setor privado americano criou mais vagas do que o consenso dos analistas esperava, repetindo aquele ritual mensal em que economistas de banco erram a previsão e depois explicam, com cara séria, por que erraram. O dado supreendeu, os mercados oscilaram, e a manchete foi tratada como evento meteorológico, algo que simplesmente acontece, sem causa, sem responsável, sem trilha de dinheiro a ser seguida. Mas todo número de emprego é resultado de decisões concretas tomadas por pessoas concretas reagindo a incentivos concretos, e o que esse boletim revela, para quem sabe ler, é menos uma economia saudável e mais uma economia anestesiada por trilhões de dólares ainda circulando no sistema desde a farra pandêmica.

O ponto que ninguém quer enfrentar é simples. Se a contratação no setor privado segue firme com a taxa de juros no patamar atual, ou a tal taxa restritiva não é tão restritiva assim, ou existe uma quantidade absurda de liquidez represada em algum canto do sistema sustentando atividade que, em economia normal, já teria entrado em ajuste. As duas hipóteses apontam para o mesmo culpado, e o culpado tem prédio em Washington, mármore na fachada e um presidente que dá entrevista coletiva para explicar por que errou de novo. Banco central não cura ciclo econômico, banco central fabrica o próximo.

Vale lembrar o que está por trás desses empregos que tanto se comemora. Boa parte da criação de vagas nos últimos anos veio de setores inflados por gasto público direto, por subsídio industrial disfarçado de política verde, por contratos federais que multiplicam empregados de consultoria, e por um setor de saúde que cresce porque o governo paga a conta de quem cresce. Tira o cano de oxigênio fiscal e veja quantos desses postos sobrevivem ao primeiro trimestre. O emprego que se vê na manchete é real, mas o emprego que deixou de existir porque o capital foi sugado pelo Tesouro para financiar déficit recorde, esse ninguém conta, ninguém mede e ninguém lamenta.

O mais cômico é assistir ao mercado celebrar dado forte de emprego como se fosse boa notícia, quando na liturgia atual do Federal Reserve dado forte de emprego significa juro alto por mais tempo, e juro alto por mais tempo significa governo americano pagando uma fortuna crescente só de serviço da dívida, o que por sua vez exige mais emissão, mais leilão de título, mais pressão sobre o próprio juro. É a serpente comendo o próprio rabo com gravata e doutorado em Princeton. Chamam isso de política monetária; um açougueiro honesto chamaria de confusão.

E aqui mora a beleza perversa do arranjo. Enquanto trabalhador comum nos Estados Unidos vê o salário nominal subir e o poder de compra encolher porque o preço do ovo, do aluguel e do seguro saúde corre na frente, os economistas de televisão explicam que a economia vai bem porque o número da ADP veio acima do esperado. A inflação acumulada desde 2020 já comeu mais de vinte por cento do dólar, e isso não é fenômeno natural, não é fatalidade, não é choque externo. É consequência direta de quem decidiu, em sala fechada, financiar três pacotes trilionários imprimindo a diferença e fingindo que ninguém ia pagar a conta. Pagaram, estão pagando, e vão pagar por uma geração.

O recado para quem analisa o Brasil daqui é o de sempre. Quando até a economia mais dinâmica do planeta, com a moeda de reserva global e o sistema financeiro mais sofisticado que existe, precisa anestesiar a realidade com juro manipulado e gasto federal recorde para manter aparência de normalidade, o que se espera de país periférico que copia o modelo sem ter o privilégio do dólar? Emprego forte não redime política monetária frouxa, déficit gigante não vira investimento por decreto, e impressora ligada não substitui poupança real. A conta sempre chega, e quem paga nunca é quem assinou o cheque.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.