Cuba acordou esta semana com seu presidente em pose de mártir, denunciando da tribuna a nova ordem executiva assinada por Trump que aperta as sanções contra a ilha. Discurso indignado, voz embargada, dedo em riste contra o império. Faltou apenas uma coisa no roteiro, e é justamente a que importa: explicar por que, depois de mais de seis décadas administrando integralmente a economia, com controle absoluto sobre fábricas, terras, lojas, salários, preços, importações e até sobre o que o cidadão pode ter na geladeira, a culpa pelo cubano comer uma vez por dia ainda mora a noventa milhas de distância.
Vamos por partes, porque a aritmética do regime é deliciosamente reveladora. Quando uma economia está nas mãos de planejadores centrais que decidem o que plantar, quanto produzir, a que preço vender e para quem distribuir, não há mercado nenhum funcionando para que sanção estrangeira possa quebrar. Você não pode acusar o vizinho de ter estourado o motor do seu carro se você mesmo retirou o motor há sessenta anos e tem andado a empurrão desde então. A ilha não foi destruída por embargo; foi destruída pela impossibilidade matemática de alocar recursos sem preços livres, sem propriedade privada, sem cálculo econômico. O resto é coreografia.
Olha, o truque é antigo e funciona porque a plateia internacional adora. O regime confisca a fazenda, mata a produtividade, racha a moeda em três cotações fictícias, persegue o pequeno empreendedor que tenta vender pizza na esquina, e quando o resultado inevitável chega, sobe no palanque para apontar Washington. É o álibi perfeito para um sistema que, deixado em paz numa ilha tropical com terra fértil, sol o ano inteiro e mão de obra alfabetizada, conseguiu o feito histórico de transformar o que já foi um dos países mais ricos da América Latina num lugar onde médicos fogem de jangada. Ninguém precisa de sanção para arruinar o que o socialismo já arruinou sozinho.
E siga o dinheiro, que é onde a hipocrisia se torna obscena. As mesmas sanções que supostamente afogam o povo cubano nunca impediram que a cúpula militar e o aparato do partido vivessem em mansões, dirigissem carros importados, mandassem os filhos estudar fora e movimentassem contas em terceiros países. O turista europeu que desembarca em Varadero é hospedado em resorts cinco estrelas operados por empresas controladas pelas Forças Armadas. O hotel funciona, o ar-condicionado funciona, o bufê de lagosta funciona. O que não funciona é o armazém do bairro do trabalhador. Não é falta de dólar; é desenho do regime. O embargo é desculpa pública para um confisco interno.
Há ainda a questão moral que ninguém na imprensa hemisférica quer tocar. Sanção contra ditadura é forma incompleta e imperfeita de pressão, com efeitos colaterais reais sobre a população, isso é verdade. Mas chamar de criminoso quem corta o crédito a um regime que prende dissidente, fuzila opositor, censura artista e bloqueia a saída do próprio cidadão, enquanto se chama de humanitário o regime que faz tudo isso, é uma inversão de valores que só sobrevive porque grande parte da intelectualidade ocidental decidiu, há muito tempo, que ditador de esquerda merece desconto. A romantização da ilha-presídio é uma das fraudes culturais mais duradouras dos últimos cem anos, e ela continua produzindo manchetes complacentes a cada novo gesto de Havana.
O que a nova ordem executiva faz, no fundo, é apenas recusar-se a financiar o algoz. Não é obrigação de nenhum país, muito menos do contribuinte americano, sustentar com remessas, créditos e exceções comerciais um aparato que existe há gerações para esmagar a liberdade do povo que diz proteger. Se o regime quer prosperidade, o caminho é conhecido, está escrito em todos os países que saíram do comunismo nas últimas décadas: devolver a terra ao camponês, a loja ao comerciante, o salário ao trabalhador, e tirar o boné verde-oliva de cima da economia. Enquanto isso não acontecer, qualquer choro no microfone é teatro, e teatro ruim, daqueles em que o vilão se fantasia de vítima e espera que ninguém na plateia tenha lido o programa.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.