O Banco Central de Cuba anunciou a suspensão de transações com Visa e Mastercard emitidas por bancos americanos, alegando o aperto das sanções dos Estados Unidos. A narrativa oficial, claro, é a de sempre, o bloqueio imperialista, a perfídia ianque, a vítima heroica resistindo no Caribe. Quer dizer, a ilha que há mais de seis décadas se gaba de ter superado o capitalismo está chorando porque o capitalismo cortou o crédito. Há piadas que se escrevem sozinhas, e esta vem se escrevendo desde 1959.
Olha, o detalhe que ninguém na imprensa careta vai sublinhar é simples. Um país que funciona, que produz, que tem moeda confiável e indústria de verdade, não depende de bandeira de cartão americano para fazer turismo girar. A Suíça não entra em pânico quando Washington espirra. A Coreia do Sul não suspende pagamentos porque alguém em Miami torceu o nariz. Cuba depende porque Cuba não produz nada além de discurso, charuto e médico exportado em regime de semi escravidão para render divisas ao partido. Tire o dólar do turista e o sistema inteiro implode, porque nunca houve sistema, houve fachada.
Me diz uma coisa, quem realmente paga essa conta? Não é o burocrata em Havana que continua jantando lagosta no hotel cinco estrelas reservado à nomenklatura. É a senhora que recebe remessa do filho em Hialeah para comprar remédio no mercado negro. É o pequeno paladar que dependia do cartão do turista canadense para fechar o mês. É o trabalhador que vai descobrir, mais uma vez, que a igualdade prometida é a igualdade na miséria, enquanto a casta militar que controla a GAESA, o conglomerado das Forças Armadas, segue movimentando bilhões por canais paralelos que nenhuma sanção alcança. Siga o dinheiro e o bloqueio some, vira fumaça.
A lição econômica é tão antiga quanto humilhante. Nenhum burocrata, por mais doutorado que ostente, consegue substituir o sistema de preços que emerge espontaneamente da troca livre entre milhões de pessoas. Quando o regime fixa o câmbio em três taxas diferentes, racionada a comida, controla quem pode abrir negócio e quem não pode, o resultado inevitável é o que se vê, prateleira vazia, fila quilométrica, balsa improvisada cruzando o estreito da Flórida. O cálculo econômico socialista é impossível não por maldade dos americanos, é impossível porque viola a natureza da ação humana. Sessenta e cinco anos de experimento, a conclusão é a mesma do primeiro ano, só que com mais gente morta no caminho.
O mais delicioso da história é a dependência envergonhada. O regime que xinga o capitalismo todos os dias na primeira página do Granma corre desesperado quando o capitalismo fecha a torneira. É como o adolescente que esperneia contra os pais e descobre, ao ser posto para fora, que não sabe nem ferver água. A revolução prometeu independência do imperialismo e entregou dependência absoluta, primeiro do subsídio soviético, depois do petróleo venezuelano, agora da remessa do exilado em Miami processada via Visa. Quem precisa tanto do inimigo provavelmente nunca foi tão independente quanto jurava ser.
Cuba não está em crise por causa do bloqueio, Cuba é o bloqueio, autoimposto, blindado por décadas de propaganda e mantido por uma casta militar que vive bem justamente porque o resto vive mal. Cada cartão suspenso é mais um pedacinho da fachada caindo, mais um turista percebendo que o museu da revolução é a própria ilha, congelada em 1959 com Chevrolet de lata e prédio descascando. Não existe almoço grátis, não existe igualdade decretada, não existe paraíso construído à força. Existe, isso sim, a evidência cubana de que toda utopia coletivista termina com o povo implorando para que o capitalismo, esse vilão tão útil para o discurso, continue por favor processando os pagamentos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.